Opinião

O dom de comunicação

Luciano Rocha

A comunicação é, desde os primórdios da humanidade, importantíssima e quando falta há o risco de os resultados serem desastrosos, como confirmam factos em todo o mundo espelhados em guerras, invasões frequentes impulsionados pela sobranceria.

Qualquer um de nós, mesmo o mais desatento, é posto constantemente perante aquela realidade. Basta, a qualquer hora do dia ou da noite, passar os olhos por jornais, ouvir rádio, ligar um aparelho de televisão. A soberba está lá, a agredir-nos com incongruência, em conteúdo e forma, às vezes ambas em simultâneo, disparadas pelo “comunicador”.
A comunicação é um dom, que se aperfeiçoa, é verdade, mas não está ao alcance de todos, como sucede, aliás, com artistas plásticos, atletas, empreendedores, músicos, um número inesgotável de ofícios. Em qualquer um deles não basta querer, é essencial ter aptidões naturais. Como se diz na linguagem popular “nascer para”. Se fosse apenas pelo desejo, o mundo abarrotava de génios.
Comunicar não é fácil, ao contrário do que tantos julgam e que, por isso, se aventuram a fazê-lo, não raro, caindo no ridículo, que é o menor dos males que provocam. Pior é poderem induzir em erro quem os ouve e tornar banal o disparate por ser endémico.
Os discursos eivados de absurdos, na forma e no conteúdo, são ouvidos em todo o mundo, mesmo, em discursos e acções de líderes que se arvoram arautos do saber. Angola faz parte dele. E não foge à regra em comunicações menos felizes, mesmo se em várias ocasiões tem dado exemplos seguidos por países mais antigos e melhor apetrechados para enfrentar dificuldades de naturezas diversas..
A comunicação, principalmente quando os destinatários são multidões e os assuntos merecem atenções redobradas, tem de ser feita por quem domina a questão em causa, mas, igualmente, possuidores de qualidades inatas para o fazer. Mesmo assim, todos os cuidados são poucos. Dizer que a Fábrica de Pólvora, no bairro do mesmo nome, entre Cacuaco e Cazenga, rodeada de casas, não constitui perigo por ser periodicamente alvo de inspecções é, no mínimo, brincar com o fogo; afirmar que os moradores daquela zona estavam a salvo se as residências em relação ao estabelecimento industrial estivessem a cem metros - o comprimento, mais coisa, menos coisa, das linhas laterais dos campos de futebol - é, para sermos benevolentes, erro de cálculo; tropeçar numa simples operação aritmética de divisão dos números oficiais de habitantes pelo os de agentes policiais e persistir no lapso é de palmatória; falar em percentagens quanto ao número autorizado de passageiros em transportes colectivos, tal como o de infectados por doenças ou óbitos é tornar confuso para a maioria que ouve o que deve ser simples; prometer cidades, por exemplo Luanda, mais limpas, é pretender tapar “o sol” com... a poeira, bem como lembrar a importância da higiene pessoal e pública em locais onde a água continua a escassear e ser forma de negócio.
Também pode ser confuso para o cidadão comum isentar do uso da máscara os praticantes de exercícios físicos, como a marcha, mas autuar, no mesmo local, o trabalhador apressado a caminho do emprego, que deixou escorregar a máscara do nariz, mesmo que tenha a boca tapada. A não ser que se prove com factos, que o vírus da Covid-19 poupa atletas.
Todas estas questões devem ser bem explicadas, com frases curtas e simples que todos sem excepção, entendam para não ficarem dúvidas no ar.
O coronavírus é inimigo sem dó, pelo que qualquer das medidas decretadas para a combater, concordemos ou não com cada uma delas, devem ser respeitadas. Quantos mais formos a cumpri-las maiores são as hipóteses de o ludibriarmos. Para que tal suceda convém que sejam explicadas, na totalidade, ao pormenor, em linguagem simples por quem domina a matéria e a forma de comunicar as decisões. De forma a diminuirmos o risco de aumento do número de defuntos a ir aos próprios óbitos, como, parece estar na moda anunciar. Coisa estranha, convenhamos, pedir esclarecimentos.

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