Opinião

O duro combate a desumanos

Luciano Rocha

Um dia hão-de somar-se todas as parcelas subtraídas abusivamente ao erário, dividi-las pelo número dos que o fizeram, multiplicá-las pelas desgraças causadas por cada um deles, para os distraídos perceberem melhor o que é combater desumanos.

O combate, recentemente desencadeado no país, contra corruptos e todas as bengalas que usam para concretizarem intentos criminosos que os norteiam, entre as quais sobressaem nepotismo e sentimento de impunidade, mas, também, bajulação, de que se servem muitas vezes para conseguir lugares estratégicos que lhes permita ter à mão o objecto a roubar, não é tão fácil como alguns insinuam, pois o inimigo é desumano na verdadeira acepção da palavra.
Sem pingo de dignidade, capaz dos actos mais atrozes para satisfazer caprichos, até imitar pessoas, como atestam casos protagonizados por alguns deles trazidos, volta e meia, ao conhecimento público. Não de meras suspeitas, mas de condenações ditadas em tribunais, no corolário de aturadas investigações, em julgamentos públicos, onde os réus têm direito a apresentar versões dos factos de que são acusados, algumas entre lágrimas de carpideiras, arrependimentos tardios, doenças sem tratamento em Angola, indisposições súbitas, exigências estapafúrdias, sacudidelas de culpas, testemunhas, advogados que contratam e a quem, naturalmente pagam, sabe-se lá se com o dinheiro que já foi de todos nós.
Um dia há-de de ser público o resultado final dos assaltos ao erário obtido. Como? Com operações aritméticas fáceis de executar, para quem frequentou o primeiro ciclo de ensino e teve como professor alguém que não tenha chegado indevidamente ao lugar, mas, se assim foi, sobra a zungueira que as faz de cabeça num “abrir e fechar de olhos”.
Enquanto não chega esse tempo, basta ater-nos aos números já “oficialmente conhecidos” para calcularmos o que Angola podia ser e não é por culpa da gula criminosa de desumanos que desbarataram fortunas em proveito próprio, com as quais se tinham evitado mortes de pessoas, famílias sem casa, nem comida, efeitos devastadores de secas e chuvas, enchentes de rios, ravinas, produtos alimentícios apodrecidos nas aldeias por falta de transporte. Se continuássemos a lista, não cabia nesta edição do Jornal.
A juntar a tudo isto, há o atrevimento desumano do exibicionismo característico da nova burguesia emergente, com a falta de princípios a contrapor ao que lhe sobra no dinheiro que lhe não custou a ter e, por isso, o desbarata em tudo o que julga projectá-lo para a notoriedade, nem que seja, por iniciativa própria, nas redes sociais. Mas, também, é aquela atitude, tão própria do novo-riquismo, que, consoante os casos e conveniências, esconde passados, amplia ou adorna-os, mas, também, os mancha, encobre berços, inventa currículos, muda de nome, que trai os desumanos e os torna alvos fáceis de quem os combate.
O combate aos corruptos, que, um dia, se arvoraram em seres superiores, acima de todas as leis, que não a deles, organizados em castas impunes, interligadas por elos criminosos, que espoliaram o erário, indiferentes ao que os rodeava, é bastante mais difícil do que alguns julgam, por ser contra monstros, apesar de disfarçados de pessoas. Espanta, por isso, haver, ainda, quem os defenda, advogue, inclusive, o perdão sem castigo. Os que o fazem desconhecem, ou esqueceram, como vive parte significativa dos angolanos, crianças, mulheres e homens de todas as idades.
Neste combate aos desumanos, temos de esquecer diferenças, estarmos juntos, cada um na trincheira que lhe está destinada. O momento não se compadece com equilibristas, os que optam por estar em cima da corda à espera de saber o lado mais cómodo aonde cair.

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