Opinião

O escritor e a preservação do ambiente

Fragata de Morais

Ambiente é tudo o que envolve e condiciona o Homem, constituindo o seu mundo e dá suporte material para a sua vida biopsicossocial, incluindo o ar, a atmosfera, as águas, o solo e o subsolo, bem como a paisagem, fauna, flora, o ecossistema e outros factores que condicionam a qualidade de vida da população.

Falar da preservação do ambiente numa etapa tão crítica quanto a que Angola atravessa actualmente, é sobremaneira importante e vital porque os problemas ambientais criados pela guerra, a mero e restrito título de exemplo as deslocações das populações, a destruição das infra-estruturas que permitiu a depredação indiscriminada dos recursos exploráveis, a aniquilação sistemática da fauna, destruição ainda que parcial das matas e a pesca abusiva com técnicas modernas depredativas. levarão anos a serem reparados se é que, em certos casos, alguma vez o venham a ser, como por exemplo com determinadas espécies de fauna agora em vias de extinção.
Haverá, em concomitância, que mobilizar todas as correntes de pensamento para a ingente tarefa de reajustamento da situação de desequilíbrio actual, até porque se por um lado no passado a guerra gerou situações que aliadas a uma gestão precária da rês pública levaram o País para o abismo económico, por outro, a vasta base de recursos naturais quer os não-renováveis quer os renováveis, permitirão um reajustamento necessário e premente. Neste contexto, o intelectual, no sentido em que a palavra ultrapassa o escritor, tem um vasto e inequívoco papel a desempenhar no campo da preservação do ambiente, já que "ambiente" é um assunto que pertence, em termos muito latos à incultura nacional não só porque conflituoso perante preceitos tradicionais, usos e costumes, quanto perante interesses económicos individuais e colectivos.
É neste emolduramento que o escritor, latu senso, tem uma tarefa que até será patriótica, de contribuir para a erradicação do problema fundamental que confronta o público, ou seja, o desconhecimento quase total do tema e das questões que lhe são próprias e atinentes. Esse plano consciente e metódico levaria as populações a uma interiorização dos problemas, o que só acontecerá quando todos os que escrevem usarem a sua arte com o objectivo de divulgação, propagação e formação colectiva.
O escritor angolano tem a obrigação permanente, ainda que moral, de ser parte integrante da educação ambiental, no que contribuirá para tirá-la daquela noção a abstracção teórica em que se encontra. Em outras palavras, para que saia dos espaços confinados das salas e se aspirja pelo imenso país em cada consciência individual no gesto que florescerá a acção.
Ao agarrar-se a dimensão política, bem como a social, em relação ao meio ambiente e projectá-las a nível da Nação, quer sob forma de letra quer colóquios, seminários, debates ou outras vias, o escritor tocará certamente numa questão de interesse público sobretudo porque se vive a nível urbano uma das maiores crises genéricas de poluição que não só desagregou a sólida estrutura familiar angolana e africana, como gerou uma incrível e sempre crescente pobreza interna que conduziu, como primeira consequência, a juventude para as bermas da alienação, da marginalidade e da incivilidade, sem mencionar o abjecto ruir do ego do cidadão comum, sujeito a uma luta natural de sobrevivência.
Num passado muito recente o escritor desempenhou um papel chave e fulgurante tendo a palavra como arma, como objectivo, revelando assim quão profundos não eram só os seus anseios quanto a sua vontade de tocar, de definir, de acusar e de modificar. O que apensou no papel, serviu de estopim para muitas consciências todavia essa flâmula não mais tremula e sua incandescência servindo apenas de referência histórica, simples páginas amareladas de livro antigo. O escritor, por obrigação um ser iconoclasta ou catalisador, devia repassar esse sentimento para que permaneça aceso naqueles que de igual modo formam voluntária ou involuntariamente o pensar nacional se souber que a questão do ambiente, os reflexos e incidências afectam quotidianamente a vida das pessoas e não só.
Há hoje, mais do que nunca, a necessidade de se aplicar a estratégia do desenvolvimento sustentável para Angola através de processos de diálogo, consultas e divulgação e cabe ao escritor que a nível individual quer colectivo, o dever nacional, cívico e moral de ser uma das inúmeras forças actuantes, ser uma voz activa e eficaz que reflicta o ênfase desse desenvolvimento, que estimule a conservação ambiental como reforço de acções e poções a longo prazo, enfim, que gere o aumento dos níveis de consciencialização pública sobre o ambiente.

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