Opinião

O ex-Presidente, os marimbondos e o efeito bumerangue

Faustino Henrique

A maior parte das entidades que exerceram o poder ou estiveram próximas do poder procuraram sempre gerir as suas vidas "pós-poder" remetendo-se ao silêncio e com sucesso, em vez de tentativas (que nunca acabam bem sucedidas) de defesa do seu legado, sobretudo quando indefensável.

Quer nos países mais avançados em termos de prática democrática e alternância do poder, quer em "países caloiros" e muitos africanos podem servir de escola, os líderes que cessaram de exercer o poder procuraram adaptar-se ao novo figurino. Mesmo nas circunstâncias em que muito do que de mau se passou, durante o seu consulado, acabou por lhe ser imputado, muitos Presidentes declinaram toda e qualquer tentativa de vir a público, directa ou indirectamente através de terceiros, em defesa do seu regime.
Inclusive nas circunstâncias do novo poder fazer parte de uma outra família política, conhecem-se muito poucas histórias de confronto, de recriminações e luta entre os antigos detentores de poder e os novos. Quando chegou ao poder, em Maio de 2015, Muhammadu Buhari tinha dado a conhecer publicamente que tinha encontrado os cofres do Estado vazios e, ao contrário do que aconteceu em Angola, o seu antecessor, Goodluck Johnatan, não veio a público dizer o quanto tinha deixado. Simplesmente e como aconselham as boas práticas da vida pós-poder "desapareceu" da vida política, cultivando o silêncio e deixando o Governo trabalhar.
O ex-Presidente da então República do Zaire, Mobutu Sesse Seko, fez 32 anos de poder naquele país, deixou um legado cuja avaliação, dentro e fora da actual RDC, divide opiniões, mas dificilmente se notam manifestações públicas de defesa do seu legado que sejam quase equivalentes à afronta aos poderes subsequentes. Muita crítica foi feita ao ex-Presidente da Zâmbia, Kenneth David Kaunda, pouco depois da instauração do multipartidarismo naquele país e sobretudo depois da sua derrota eleitoral, em 1991, mas não são conhecidas iniciativas do mesmo, de familiares ou de amigos em defesa do seu discutível legado.
A família Wade, no Senegal, mesmo depois de Karim Wade, o filho do ex-Presidente Abdoulaye Wade ter sido detido pelas autoridades judiciais durante o actual mandato do Presidente Macky Sall, não disputa o legado do antigo Chefe de Estado. Não são conhecidas iniciativas do ex-Presidente Wade para explicar o quanto deixou nos cofres do Estado, mesmo apesar de acusações de excessos durante os mais de quinze anos que esteve no poder.
Escrevi uma vez, defendendo que quanto mais o ex-Presidente José Eduardo dos Santos, as filhas e os marimbondos em geral procurarem "branquear" a sua imagem, reagir em sua defesa com confronto e fazerem tudo para pôr em causa a actual governação, apenas vai provocar um efeito bumerangue.
Tudo iria voltar-se contra os mesmos e o tempo está a provar que, de facto, toda a tentativa para lavarem a imagem a todo o custo, inclusive procurando desacreditar o actual Governo do Presidente João Lourenço vai ter um efeito contrário.
O antigo Presidente da República teve tempo suficiente para alinhavar um processo de transição com régua e esquadro, prevendo e prevenindo um conjunto de interrogações que se levantariam com a sua saída.
Depois de abandonar o poder nas condições em que fê-lo, com um passivo que supera largamente os seus activos, que os há também, é verdade, José Eduardo dos Santos corria o risco de ver muitas das acções do seu consulado completamente indefensáveis.
Além de gerir mal a fase final e mais importante da transição, José Eduardo dos Santos tinha perdido uma soberana oportunidade de aberta e publicamente dar a conhecer em que estado estava a deixar o país. Os grandes líderes caracterizam-se também por esse gesto de humildade, na hora da saída, com declarações que se afiguram como uma espécie de acto de reconciliação com o povo, para não dizer pedido de perdão por eventuais erros e falhas de que todos os seres humanos estão sujeitos.
Desde a famosa e desastrosa conferência de imprensa, na sede da FESA, no dia 21 de Novembro de 2018, em que o antigo Presidente procurou demonstrar o quanto tinha deixado nos cofres do Estado às sucessivas reacções das suas filhas, independentemente de terem ou não razão de ser, essas acções têm prejudicado mais do que ajudar.
Atendendo ao pesado e quase indefensável legado social e económico do antigo Presidente e a forma como os familiares estiveram na Pole Position do famigerado processo de "acumulação primitiva de capital", toda e qualquer defesa dessa herança acaba sempre por ter um efeito contrário.
A gestão do silêncio, a prudência e inteligência nos actos públicos de defesa, bem como a renúncia ao confronto para com o novo poder, deveriam ser os ingredientes adequados para a esperada adaptação a um contexto que eventualmente lhes seria oposto.
Dificilmente conseguirão convencer a opinião pública nacional e internacional, numa altura em que até os poucos que saem publicamente em defesa do ex-Presidente, das filhas e dos marimbondos em geral experimentam um exercício quase que suicida.
Obviamente que numa democracia, como a que pretendemos para Angola, deverão sempre ter o seu espaço para defenderem o que julgarem defensável, mas o actual contexto político aconselha que se pondere os benefícios e prejuízos do referido exercício que apenas vai, sempre, provocar um efeito bumerangue.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia