Opinião

O fim de Omar al-Bashir

Sousa Jamba

Estou muito feliz porque um homem muito mau, o ditador Omar al-Bashir, do Sudão, já não está no poder. O homem, que ascendeu ao poder há trinta anos, em 1989, em Cartum, foi destituído devido à pressão da população e poderá acabar em Haia, para ser julgado por crimes contra a humanidade.

Se não for julgado, o facto é que Omar al-Bashir é uma daquelas figuras cuja vida cá na terra é já um inferno. Ganhei um profundo ódio por este ditador quando, em 2004, vi a imensa agonia do povo de Darfur e, antes, quando, nas várias viagens que fiz ao Sul do Sudão, vi o sofrimento das populações. Nunca hesitei, em várias plateias, em afirmar que al-Bashir era um Diabo - e que, naquela solidariedade absurda de governos africanos, a União Africana ignorava muitas das suas brutalidades. A um certo momento, várias partes do Sudão sobreviviam praticamente de ajuda externa. A especialidade do governo de Cartum era bombardear aldeias ou armar milícias para fazerem incursões em que nada, mas nada mesmo, se poupava. No fim dos anos 80, do século passado, houve bombardeamentos de aldeias inteiras da etnia Dinka que são imperdoáveis; Omar al-Bashir ordenava aos seus homens que acabassem com tudo que tinha vida.
Em 2004, na fronteira entre o Sudão e o Chade, eu vi, com os meus próprios olhos, pessoas a tremer porque tinham perdido entes-queridos por causa das incursões dos “janjaweeds” - homens ferozes árabes que atacavam aldeias de negros montados em cavalos. Al-Bashir e os seus próximos armavam estes assassinos. Há uma discussão se o que se passou em Darfur é genocídio ou não; a verdade é que Omar al-Bashir matou milhares.
O Sudão, desde a sua independência da Grã-Bretanha, e o Egipto (os dois países governaram a região em simultâneo) em 1956, foi liderado por uma elite arabizada, vinda principalmente do norte do país. A sul do país, ao longo do rio Nilo, há as chamadas etnias nilóticas e sudânicas - negros, muito escuros, alguns convertidos ao Cristianismo e outros que não se desfizeram das suas religiões tradicionais. Depois de assumir o poder em 1989, Omar al-Bashir liderava um órgão chamado Frente Nacional Islâmica. Os líderes árabes deste grupo viam o sul e oeste, regiões tradicionalmente com maiorias negras africanas, como sendo uma fonte de escravos. Estes líderes viam a manifestação de negros africanos, reclamando contra a sua marginalização, como uma aberração que tinha que ser aniquilada com força. Foi al-Bashir que insistiu, por exemplo, que o fim de semana em todo o país tinha que começar na sexta-feira; que devia haver uma redução na construção de igrejas; que o Árabe devia ser a língua franca de todo o país. Logo após ter chegado ao poder, al-Bashir e os seus colegas islamistas soltaram uma espécie de polícia para moralizar a sociedade. Na realidade, aquilo servia mais para humilhar os negros.
Conheci Suzanne Jambo na capital do Quénia, Nairobi, quando ela pertencia à comunidade de refugiados sudaneses por lá. Suzanne é filha de mãe negra e pai indiano. Em Cartum, todos pensavam que ela era árabe. Suzanne contou-me que uma vez o seu irmão mais velho, que é escuro, comprou-lhe gelado e levou-a às costas, o que ela adorou. Os árabes todos fizeram questão de saber o que um preto lá do Sul estava a fazer com uma menina árabe. Suzanne, que pretende candidatar-se a Presidente da República nas próximas eleições no Sul do Sudão, tendo estado em várias posições de destaque no governo que resultou da separação do Sul, em 2011, sempre falou-me de como os negros/cristãos eram sistematicamente humilhados e oprimidos, num meio inspirado por figuras como Omar al-Bashir.
Omar al-Bashir, de 75 anos, não foi um ditador qualquer. Este soldado pára-quedista, que participou na guerra do Egipto contra Israel, e que assumiu o poder com 45 anos, tem dois mestrados em Ciências Militares. A sua especialidade foi sempre manipular os vários grupos étnicos. Omar al-Bashir foi mestre na arte de dividir para melhor reinar. Al-Bashir atiçava os conflitos entre os vários grupos étnicos e às vezes armava os dois lados (quando se tratava de grupos negros africanos). Foi no Sudão onde aprendi o ditado que se precisa de um escravo para matar outro escravo. Mesmo na instabilidade persistente da nova nação do Sudão do Sul, a mão, não muito invisível, mas altamente malevolente, de Omar al-Bashir estava por trás de tudo.
Como vários maquiavélicos, Omar al-Bashir não tinha nenhuma bússola de ética ou fidelidade. O que mais contava para ele eram os seus próprios interesses. Num momento ele dizia aos seus apoiantes para darem os seus filhos para irem morrer no Sul em nome do Islão, e depois, quando sentiu que o mundo estava contra ele (já que tinha sido grande amigo do Saddam Hussein e Ossama Bin Laden), ele fez tudo para dar a independência ao Sul do país. A sua sobrevivência política contava mais do que a indivisibilidade do país, para a qual milhares de jovens, apoiantes da Frente Islâmica Nacional, tinham dado as suas vidas. A verdadeira história de Omar al-Bashir não foi ainda contada. A verdade é que ele figura entre os piores ditadores dos nossos tempos.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia