Opinião

O fraudulento "Plano de Paz do Século"

Faustino Henrique

Depois de ser chamado de "Plano de Paz do Século", de ser adiado várias vezes desde que foi anunciado há três anos, o Plano de Paz para o conflito israelo-palestiniano do Presidente norte-americano, Donald Trump, sai da forma, em princípio, esta terça-feira.

Na verdade, a apresentação de um plano de paz entre israelitas e árabes é um exercício a que os Presidentes americanos se dedicam desde Jimmy Carter, que curiosamente foi o primeiro a promover um que prevalece até hoje, nomeadamente o Acordo de Paz entre o Egipto e Israel, assinado em Camp David, arredores de Washington, em 1979.
Depois da interrupção com a administração do Presidente Ronald Reagan, Bill Clinton testemunhou a assinatura dos Acordos de Oslo, de 1993, assinados pelos falecidos Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, respectivamente, primeiro-ministro de Israel e líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP), que abriria caminho para, pela primeira vez, começar-se a falar do Estado palestino soberano, independente e em paz com Israel. Com aquele acordo, foi também possível criar a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), a estrutura que passou a ser encarada como embrião do futuro Governo do vindouro Estado palestino. Mas todos os esforços para a criação desse Estado, na verdade, previsto em 1947, pelo chamado Plano de Partilha da Palestina, que augurava um Estado árabe e outro judeu para ambos os povos, falharam desde 1993. Os sucessivos Presidentes americanos, democratas e republicanos, nunca foram bem sucedidos na apresentação de um Plano de Paz que satisfizesse ambas as partes.
O Presidente Donald Trump, desde que chegou à Casa Branca, do alto da sua incontinência verbal, declarou que ele iria apresentar um plano que seria o do século. Mas muitos sectores dentro e fora do Médio Oriente duvidam que Donald Trump apresente um plano equilibrado a jugar pelos passos errados que deu em termos políticos e diplomáticos.
A administração Trump deu passos que seriam impensáveis a qualquer administração americana, no que aos esforços para resolver os problemas entre palestinos e israelitas dizem respeito. Entre estes constam o encerramento da missão palestiniana em Washington, o embrião da eventual futura embaixada palestina na capital americana, o fim da ajuda financeira à ANP. Acto contínuo, a administração Trump, contra todas as expectativas, avançou com a transferência da Embaixada americana, de Tel Aviv, a capital internacionalmente reconhecida do Estado de Israel, para Jerusalém, uma cidade transformada em capital política do Estado judaico, mas considerada ainda em disputa.
Contrariando o Direito Internacional e inúmeras resoluções do Conselho de Segurança da ONU, a administração Trump, ao mudar a Embaixada, acaba por reconfirmar o que o parlamento israelita fez em 1980, quando aprovou uma resolução que transformava aquela cidade na capital una e indivisível de Israel.
Todos esses passos "ferem" gravemente os compromissos e precedentes abertos com os acordos e conversações entre israelitas e palestinos, curiosamente sob a mediação americana, desde Oslo, em 1993, Camp David, em 2000 e as várias rondas inconclusivas de diálogos e encontros.
Para muitos, na verdade, a administração Trump, com as suas incoerências relativamente aos passos de mediação que se esperam dos Estados Unidos só está a fazer às claras o que as outras administrações andaram a fazer de forma velada. Por isso é que para muita gente todas as iniciativas para resolver o conflito israelo-palestiniano foram sempre encarados não necessariamente como soluções para o problema, mas meros instrumentos de gestão do referido conflito.
Esse Plano de Paz cujos pormenores já vazaram para fora foi já contestado pelos palestinos atendendo que o mesmo parece ter como principal bandeira um pacote económico em detrimento da componente política que, como se espera, é dos mais importantes.
Diz-se que os americanos pretendem usar países como a Arábia Saudita para "pressionar" a liderança palestiniana no sentido de aceitar um "plano de paz económico" que prevê a injecção de 50 mil milhões de dólares, mas curiosamente nada se fala sobre o Estado palestino.
A administração Trump, ao contrário das precedentes, deixou de fazer referências à chamada solução dos dois Estados e para agravar a desconfiança dos palestinos deixou de alinhar com o Direito Internacional que considera os assentamentos israelitas em territórios que deverão fazer parte do futuro Estado palestino como ilegais.
Benjamin Netanyahu, que se prepara para visitar Donald Trump, espera que este reconheça igualmente a soberania israelita sobre todo o Vale do Jordão, um passo que poderá "enfurecer" inclusive a Jordânia, país com o qual Israel assinou um acordo de paz, em 1994.
Os meios de comunicação israelitas não se cansam de evidenciar o facto de que o Plano de Paz de Donald Trump vai favorecer pesadamente Israel, a começar pela aprovação da anexação de territórios palestinos, toda a cidade de Jerusalém e deixando restantes partes, ainda assim, sob o controlo de Israel.
O mais curioso em tudo isso é que a administração Trump "cozinhou" um plano de paz sem que uma das partes fosse contactada, a palestina no caso, contrariamente a israelita que seguramente está completamente ao corrente sobre os pormenores do plano.
O plano está condenado ao fracasso, em termos de aceitação, numa altura em que a ANP, pela voz do presidente, o octogenário Mahmoud Abbas, já advertiu os Estados Unidos e Israel sobre as linhas vermelhas sobre as quais nenhuma organização política palestiniana poderá atravessar.
Mas desta vez, se os palestinos negarem, os israelitas não poderão evocar as famosas palavras de Abba Eban, famoso diplomata israelita que, face à rejeição dos palestinos em negociar com os israelitas, disse uma vez que "os palestinos nunca perdem a oportunidade de perder uma oportunidade", facto que se não vai aplicar agora, fruto da aberta e vergonhosa parcialidade da administração Trump. Se os palestinos rejeitarem esse Plano de Paz, como já o fazem sem sequer o conhecerem e porque não precisam de o conhecer a julgar pelos passos inconsistentes já dados pela administração Trump, o farão com toda a razão. Nunca administração americana alguma foi tão parcial, tão desonesta e tão pró israelita como a actual, que se nega a falar com as autoridades palestinianas e se dá ao despautério de criar um plano sem contactar um dos destinatários.

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