Opinião

O golaço de Marega

João Melo

Herdei do meu pai, entre muitas outras coisas, o amor por dois clubes de futebol: o velho Atlético de Luanda, clube ligado à história do desporto e do nacionalismo angolano, que ele chegou a treinar (ligação afetiva transferida ao Petro-Atlético de Luanda, seu sucessor), e também o glorioso Sport Lisboa e Benfica.


Como benfiquista, gostaria que Marega não tivesse marcado aquele golo que deu a vitória ao seu atual clube, no recente confronto com o Vitória de Guimarães para o campeonato português de futebol, deixando assim o “meu” Benfica numa situação desconfortável. Mas o golaço que ele marcou logo a seguir – abandonar corajosamente o campo, em sinal de protesto contra os insultos racistas de que foi vítima - fez-nos lembrar, a mim e a (quase) todos, que o futebol é só um jogo e que há coisas muito mais importantes na vida.
De facto, o gesto de Marega – que fez e continua a fazer correr rios de tinta em Portugal e no mundo - alertou-nos que chegou a hora de enfrentar e vencer um dos grandes e persistentes desafios que a humanidade continua a ter pela frente: o racismo. E que nesse jogo só pode haver um clube: o clube dos antirracistas. Verdadeiramente descomplexados, sinceros, plenos e unidos.
Em primeiro lugar, esse desafio não admite tergiversações de nenhuma espécie, trocadilhos conceituais, “jogos de linguagem” ou taticismos. Racismo é racismo. Não é “opinião”, “estupidez”, “ignorância” e outros termos que apenas contribuem para atenuar a sua boçalidade e gravidade. A sua condenação deve, pois, e além de inequívoca, ser vocalizada sem receio ou calculismo. Os silêncios táticos são indesculpáveis, pois não somente o desculpabilizam como o encorajam.
A propósito, li na imprensa portuguesa que, quando este episódio foi abordado pela primeira vez na Assembleia da República, os parlamentares dos partidos de direita se mantiveram em silêncio. Não tenho dúvidas: se o referido silêncio é obviamente explicável no caso do único (?) deputado de extrema-direita no parlamento português, já no que diz respeito à direita dita liberal (até quando?), tal silêncio verdadeiramente “ensurdecedor” foi um claro e mero recurso tático, precisamente para tentar não perder eleitores para a extrema direita. É assim – lembro – que medram os ovos da serpente.
Em segundo lugar, o combate ao racismo não implica pulsões classificatórias, que apenas suscitam reacções de sinal contrário, transformando o debate numa mera disputa de rótulos e eventualmente, no limite, uma troca de insultos, desviando o foco das questões concretas que urge resolver.
A discussão sobre se Portugal é ou não um país racista, por exemplo, parece-me pouco produtiva, para não dizer inútil. Hoje, todos os países são e, ao mesmo tempo, não são racistas. Com efeito, e salvo informações mais acuradas, não há, hoje, nenhum país “institucionalmente” racista, no sentido de a discriminação com base na “raça” estar inscrita na constituição e nas leis. Contudo, em todos (digo bem, todos) os países há sentimentos, manifestações e práticas racistas. Assim sendo, a luta deve ser eliminá-los e superá-los, ali onde tais fenómenos existirem e qualquer que seja o seu sentido.
O ponto é que o racismo institucional acabou, mas talvez em todos os países, em maior ou menor grau, persistem, na prática social em sentido amplo, uma série de práticas que configuram aquilo a que se chama “racismo estrutural”. Os casos mais flagrantes que conheço são os dos Estados Unidos e do Brasil. Mas Portugal não escapa, também, a essa realidade. Não é ocasional, por exemplo, que tenha de se “festejar” o facto de o país, mais de 40 anos depois do 25 de Abril, ter finalmente uma ministra e três parlamentares negras. E alguém já reparou que a televisão portuguesa (como a brasileira) é excessivamente branca e loira?
A verdade histórica é que o “racismo científico” foi criado pelos europeus no século XVIII. Por isso, nos territórios onde, hoje, as elites dominantes são europeias ou de origem europeia, as crenças e práticas racistas (anti - negros) persistem. Ainda há dias, um consultor do primeiro ministro britânico demitiu-se após ter afirmado que os negros possuem um QI inferior ao dos brancos.
Quanto aos territórios dominados por elites negro-africanas (a precisão impõe-se porque, assim como há europeus negros, também há africanos brancos), alguns deles, como Angola, Moçambique e África do Sul, mas não só, deram, desde que aquelas assumiram o poder, bons exemplos de integração racial, a todos os níveis. Mas qual a situação actualmente? Continua a haver avanços nesse sentido ou, pelo contrário, está a haver recuos?
Em todas as sociedades pluriétnicas (na realidade, todas as sociedades são cada vez mais pluriétnicas), a existência de tensões raciais é um dado adquirido. É preciso discuti-las abertamente, com o propósito – diga-se – de superar todas as formas de discriminação e não de perpetuá-las ou, o que seria o mesmo, mimetizá-las.
O golaço de Marega veio lembrar-nos: cada um deve ter orgulho da sua própria cor – como ele mostrou, quando, reagindo aos insultos racistas de que estava a ser vítima, apontou enfaticamente para a própria pele - mas as “raças” não interessam para nada.
*Jornalista e escritor

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