Opinião

O gosto de ouvir rádio

Adriano Mixinge |*

Muito provavelmente você, caro leitor, viu-lhe há pouco tempo a passear de carro pelas ruas da cidade e suas periferias, sem saber que desde já há uns bons dias, depois de sair do serviço, afinal, ele continua a girar por aí, nas suas andanças, para não ter de parar, desligar o veículo e deixar de ouvir rádio.

Desde a semana passada que a mulher do tio Orelhas não vê o marido: ele adora ouvir rádio desde o tempo da guerrilha. Há quem o recorde com o receptor de rádio colado às orelhas, mas, ele ainda não leu “Frequências Poderosas: rádio, poder de Estado e guerra civil em Angola 1931-2002”, o livro da Professora Marissa Moorman da Universidade da Indiana (USA) e ignora completamente a existência do livro “50 anos de Rádio em Angola” de José Maria Pinto de Almeida.
Muitas pessoas acreditam que são aquilo que comem ou aquilo que lêem, mas o tio Orelhas não tem absolutamente dúvida nenhuma de que ele é aquilo que escuta: ele não sabe ao certo se quando a 28 de Fevereiro de 1931 o rádio amador Álvaro Nunes de Carvalho fez, pela primeira vez, a radiodifusão de um programa tinha ideia da importância que a rádio teria na história de Angola.
Na sexta-feira última, por exemplo, foi deixar o "rame-rame" dos colegas que, no serviço, lhe chateavam, entrar para o carro, sentar-se comodamente e pôr-se a conduzir para desfrutar da música das rádios, qual delas a melhor, enquanto regressava à casa.
Os programas de rádio continuam a estar tão bons que ele só parou para pôr combustível no carro: avisou a mulher que passaria o fim-de-semana fora, ela desconfia de outras coisas, mas ele está firme, no volante. Ele ignora se é mesmo verdade ou não que, alguns antigos guerrilheiros controlam e ou são os donos de algumas rádios da cidade de Luanda.
Todos chamam-lhe tio Orelhas e ele, no princípio, não gostava, mas, com os anos, agora que a velhice é a outra das suas companheiras, até acha simpático. Quando alguém telefona, se não estiver no meio de um engarrafamento, ele encosta-se à berma da estrada para responder a chamada ou, se, pelo contrário, o tráfego for denso e infernal, no meio dele, ele responde sem importar-se muito se o seu interlocutor ouvirá, no fundo da conversa que manterá, mesmo que baixo, o som da rádio que mantém sempre ligada.
Na rádio, ele gosta de ouvir boa música não importa de que género fosse, não perde uma boa conversa entre um ouvinte e um locutor, as publicidades surpreendem-lhe e já houve vezes que teve que conter o seu desejo de telefonar para alguma das estações radiofónicas, mas, do que não abdicava mesmo era de desfrutar de um bom programa de debate político durante um engarrafamento.
Quando ao contrário da época pré-eleitoral, em 2017, parecia em palavras de Borralho Ndomba haver uma tendência de as rádios aumentarem, com o intuito de contribuírem para passar as mensagens dos partidos políticos aos eleitores, no ano passado, ele soube que algumas rádios privadas estavam a ter problemas de tesouraria, com os jornalistas a ficaram meses a fio sem serem pagos, sentiu uma angústia pior a que sentira, alguma vez, ao não poder ouvir o programa “Angola Combatente”.
Quem não lhe conhece poderia chegar a pensar que o seu nome era simplesmente uma referência ao tamanho e a forma delas, ou, também, que fosse uma alusão ao seu mau hábito, desde a adolescência, de encostar-se e ficar por trás das portas para ouvir o que não lhe dizia respeito, mas, na verdade, o nome tem a ver com a sua mania de ouvir rádio, conhecendo a exacta frequência modulada ou a onda curta em que se sintonizam cada uma das cerca de vinte rádios, que podemos captar em Luanda.
MFM, Mais, Eclésia, Kairos, Nacional de Angola, Luanda Antena Comercial, Tocoísta, Escola, Despertar, RFM Estéreo, Ngola Yetu, Unia, Kuia Bué, Muzangala, Kwanza, Nostalgia, Romântica, Famastar e Global Fm são algumas delas e ele as conhece de cor e salteado. A Rádio Nacional com cinco estações de rádio, na capital, dezassete estações regionais e trinta centros de transmissões é a maior rádio de Angola.
Também sabe que, com a internet, hoje é mais fácil configurar uma rádio: na prática e independentemente da complexidade das questões jurídicas das empresas e serviços online, actualmente, qualquer internauta pode desenhar e montar uma.
A mulher do tio Orelhas ultimamente só fala das autarquias e da necessidade do surgimento das rádios comunitárias. A rádio é importante para a vida do tio Orelhas como o foi para a história de Angola e como será para a gestão, desenvolvimento e consolidação das autarquias: enquanto elas não chegarem, se o virem a rodear pela cidade a ouvir rádio deixem-no passear, ele não está a fazer mal a ninguém.
* Historiador e Crítico de Arte

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