Opinião

O Hayleka não morreu

Arlindo dos Santos

Sempre imaginei que o Hayleka Marcelino fosse incapaz de me enganar. Mesmo que empregasse a habilidade que subtilmente usou naquele idílico começo, para esconder de mim e da Ana Paula o lindo romance de amor que vivia com a nossa Kátia Micaela. Soube fazê-lo então, com fintas dignas dos maiores craques, sempre com aquele sorriso malandro e bonito que tinha nos lábios. Mas nesta última segunda-feira, o Hayleka, o meu querido rapaz, o meu cúmplice, o meu amado sobrinho, o senhor de múltiplas habilidades, desconseguiu de fintar a maldita. Como foi possível?

Faltou-lhe o amparo da avó Lucília, de nossa eterna memória. Essa nunca se deixava enganar, só não resistiu, como ele agora, às ciladas da besta. Mas teve ainda tempo de contribuir ao longo dos seus últimos anos, para o fortalecimento dos laços de família que se tornaram vigorosas amarras com o nascimento do Lwazi Alexandre. Esses factos e o apego que tinha aos projectos em que se envolvia, fizeram-me alimentar a falsa ideia de que eu nunca mais seria enganado.Jamais desse modo tão vil e traiçoeiro, e precisamente pelo Hayleka. Como estava errado!
Quando no último domingo falamos, nunca imaginei que o fazíamos pela última vez. Algo fora do nosso controlo estava a ser gizado nesse sentido, porque até fui tentado a enviar ao nosso grupo da família, um pequeno vídeo feito nesse mesmo dia, no qual esboçava um aceno, uma espécie de adeus. Era o meu adeus ao Hayleka. Há coisas que não podem ser explicadas e sempre nos deixam espantados quando acontecem! E agora Hayleka? O que vai ser de nós? Agora espero que no sítio para onde seguiste, sejas recebido pelo tio Nito e pela avó Lucília. Esta, tenho a certeza que te acolherá com alguns dos mimos do teu agrado. E a esperarem-te estarão também os teus tios Quim e Bito. Antes de te levarem à presença do mais velho, conversem e matem saudades. Explica-lhes o que se vai passando aqui em baixo. Depois tratem todos da celebração dos cem anos do nosso patriarca Manuel Joaquim dos Santos. Estou a vê-lo a acariciar-te a cabeça, a perguntar por nós que ainda andamos por cá, pelos miúdos que não conheceu. Vai tentar saber notícias do Benfica e aposto que vai dizer-te no meio daquele sorriso grande e inesquecível: que sejas bem vindo meu Kasala Kamukuku!
Neste doloroso momento em que decidiste seguir a tua viagem, deixando os teus pais, o teu irmão, o teu querido filho, a tua mulher amada, a tua Daniela, os teus tios, os vários sobrinhos e primos que te adoravam, completamente inconsoláveis; em que deixaste abruptamente a verdadeira legião de amigos que soubeste conquistar e que estão espalhados por muitos sítios do mundo, a viver um momento ímpar de tristeza, só te posso dizer o que alguém já disse: Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós!

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