Opinião

O medo depois da farra

Adriano Mixinge

Nunca percebi lá muito bem as pessoas que gostam de livros e filmes de medo e de terror até ler “A mãe dos monstros e outros contos de locura e morte” de Guy de Maupassant e saber o quanto os jovens estão fascinados por eles. De um modo geral, o livro e a vida não parecem ser assim tão distintos.

Porém, não gosto nada da sensação de ignorância absoluta face ao futuro que, ultimamente, parece tomar conta de nós: o medo na literatura não é assim tão mau e desestabilizador quanto o medo na vida, é isso o que os faz diferentes.
O medo que a literatura produz, em muitos casos, chega até mesmo a seduzir-nos. Não me admira, pois, que ao anoitecer, em época de cacimbo, quando faz um friozinho que, geralmente, acelera a nossa ida à cama haja quem goste de ler. Quando vamos à cama nem sempre temos sono e nessa vígilia que se repete todas as noites, noto que, nos últimos tempos, parece ser cada vez mais evidente que vivemos o primeiro período da história do mundo e da história de Angola, em particular, depois de uma grande farra.
Os homens deram-se conta de que esbanjaram tanto recursos não renovavéis para coisas tão futéis, quando afinal o essencial é poder ter boa saúde. Deixaram de existir poderes e verdades absolutas: a pandemia do coronavírus veio pôr em cheque tudo e todos. Assim que, temos medo até mesmo do mais mínimo descuido, do gesto inconsciente que permitiria que nos infectássemos. É época de recolhimento, de leitura e de uma vida preocupada com o essencial.
Todas as noites ler até antes de nos apercebermos que, afinal, já começamos a cabecear oferece-nos aquele momento de suspensão e viagem, em que entramos na história que o livro narra para, depois, sair dele satisfeitos ou o contrário: vários sentimentos se sobrepõem e reagimos diferente se o sentimento for de alegria, se nos incitarem a reflexão ou se sentirmos medo.
Mas, do que não tenho dúvidas nenhumas é que o mundo e Angola mudaram: há uma crise social, uma crise política, uma crise económica, uma crise religiosa e uma crise civilizacional e cultural, que cada país, sociedade e indíviduo tentam gerir à sua maneira. Em muitos casos e este parece ser o do nosso país, o ambiente é de fim da farra e de descalabro: edíficios inacabados, bens e empresas confiscadas, a honra, o prestígio de uns questionados, muita miséria em todos os sítios.
O dia-á-dia de muitos é semelhante ao de um filme de terror, onde têm que organizar melhor o tempo, os meios e as oportunidades para evitar a fome, para sobreviver: não têm medo de nada, decidiram assumir que a máscara lhes protege. Mas, tanto na vida como no livro de Guy de Maupassant, ultimamente sinto muito medo e essa sensação de vulnerabilidade que, num acto reflexo quase inconsciente faz-me, nas noites em que o leio, acomodar a almofada e cobrir a cabeça para fugir da história que leio e agarrar a vida que tenho, depois da farra.
Ninguém pode disfarçar os sinais visivéis da pátina do descalabro, numa sociedade que já avisou que “em 2022 vão gostar”: o caos e o medo entra, primeiro, provocam um inusual desejo de recolhimento e, depois, um incómodo desejo de adormecer mais rápido. O medo faz adormecer, pode desligar alguns dos instintos ou fazer perder a lucidez: é como se ele nos sequestrasse: é isso que, ultimamente, os contos de Guy de Maupassant costumam fazer comigo.
As pessoas que gostam de livros e filmes de medo e de terror os preferem antes que tê-los, na vida. Mas, aviso: é contra a desolação, o abandono e a precariedade que, entre nós, instalou-se depois da farra, que devemos lutar. A juventude no mundo e neste país tem muito medo, os seus nivéis de insa-tisfação são cada vez mais elevados: ela não encaixa nem aceita as meias medidas, com ela as soluções paliativas não funcionam. A juventude adora os filmes de medo e de terror. Na vida, depois da farra, o medo é a adrenalina que lhes esti-mula, não lhes adormece, lhes revolta: é isso que devemos perceber, imediatamente.

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