Opinião

O meu país como se fosse uma laranja

Adriano Mixinge

Com o mundo quieto sentindo-me livre, independente e em paz, no confinamento, gosto de começar as manhãs descascando laranjas: afinal, para um cidadão consciente há poucas coisas essenciais e utéis que valem, realmente, a pena.

Depois não me importo se é a polpa das maçãs, das pêras, das pitaias, das ameixas ou a das bananas que passam pelas minhas mãos antes de irem repousar ao prato ou se, por acaso, é o silêncio provocado pela solidão de um luxo conhecido, que está na origem da socialização, quando os homens inventaram a agricultura, o que me faz estar optimista. Com o mundo quieto não há, apenas, socialização. Estamos a experimentar novas maneiras de viver, com algumas mudanças de paradigma e outras abrindo perspectivas que mais tarde ou mais cedo, certamente, se confirmarão: evitar aglomerações, - afinal podem desmantelar os mercados precários e insalubres das cidades, só falta pôr o exército a, por exemplo, construir infraestruturas básicas e a pavimentá-los-, a assumir a primazia da ciência sobre a religião, - as escolas são mais utéis do que as igrejas, todas elas deverão reinventar-se: voltar ao espaço íntimo das casas ou criar espaços virtuais não são opções más-, lavar as mãos frequentemente, - urge melhorar o acesso à agua e, em geral, o saneamento básico-, saber o estado de saúde concreto de quem temos próximo, - desenvolver a saúde pública ajudaria a resolver muitos outros problemas.
As maçãs e as pêras, eu as corto em quatro partes e depois vou descascando e recortando separando as sementes e pondo-as no prato, pedaço a pedaço. As pitaias: prefiro cortar ao meio, tirar a cascae depois de pôr a sua polpa semiesférica sobre a palma da minha mão cortando-a, depois, em pedaços menores como se a faca fosse uns ponteiros marcando os minutos e as horas.
Com o mundo quieto trato as ameixas com delicadeza tirando a casca quase como se as raspasse e depois as corto devagar desfrutando da sua textura farinhenta. Com as bananas é sempre obsceno, doloroso e até mesmo, às vezes, político: a fruta tem uma “fama injusta” para além do seu valor nutritivo.
Todas as manhãs, a faca atravessa o corpo das frutas, em alguns casos, evitando o caroço. É como se o gesto de cortar as frutas, também, definisse os termos de um diálogo que passa pela boca, mas que a extravasa: muitas vezes, quando as comemos é como se estivéssemos a ajustar contas com o nosso passado e com as nossas memórias.
Com o mundo quieto ou não, poder comer frutas todas as manhãs é um luxo. Antes de comê-las, enquanto as corto, inúmeros pensamentos passam pela minha mente:
Para que nos terá servido a Independência (1975) ou a Paz (2002) se não conseguimos construir um país mais justo e economicamente autosustentável?
Para que nos servirá a riqueza económica se não valorizarmos a riqueza artística e cultural e o poder de uma boa educação que nos capacite a absorver os melhores avanços tecnológicos e intelectuais deste tempo, “sem perder a ternura” como diria o guerrilheiro?
Para quê nos servirá o petróleo quando for mais caro produzi-lo do que deixá-lo na natureza enquanto optamos por ignorar que temos uma agricultura pouco desenvolvida?
O que aconteceria se como sociedade olhássemos para as nossas necessidades de desenvolvimento com o mesmo foco, contundência e decisão como estamos a lutar para evitar a proliferação do coronavírus?
Parece evidente e concordo plenamente com aqueles que pensam que urge repensar tudo de novo, com a mesma firmeza com que lutamos pela Independência e para alcançar a Paz, em Angola: se aquelas custaram mortes, suor e lágrimas, o que nos espera, na verdade, podemos fazê-lo superando todos os obstáculos com o mesmo prazer, naturalidade e empenho com que descascamos as laranjas, porque não há nada mais importante que a vontade inabalável do cidadão consciente.

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