Opinião

O mundo tem uma questão com o Irão mas Trump agrava-a todos os dias

Paulo Pedroso | *

O mundo tem uma questão muito importante para gerir com o Irão - evitar que este consiga produzir armas nucleares. Com essa capacidade militar, o regime iraniano seria uma terrível ameaça numa região ainda estratégica por causa do petróleo e desde sempre muito instável.

Não apenas por pôr Israel em perigo, mas também porque Israel e seguramente a Turquia, a Arábia Saudita e o Egipto tudo fariam, nesse caso, para ter a mesma capacidade militar, numa escalada que seria tudo o que o Médio Oriente não necessita. Mais, se os arsenais nucleares foram até hoje instrumentos de dissuasão e não de produção de guerra, numa região tão volátil e com lideranças tão imprevisíveis, ninguém poderia apostar em que não fossem uma porta aberta para transformar as tragédias regionais de hoje em catástrofes mundiais de amanhã.
Obama acautelou os interesses mundiais no acordo com o Irão que restringia a sua possibilidade de progredir no cenário nuclear a troco de redução das sanções económicas. Foi este caminho que Donald Trump unilateralmente rompeu, ignorando as outras partes no acordo - a Europa, a Rússia e a China - e lançando o mundo numa situação muito mais incerta na verdadeira questão que este tem com o Irão.
Nesta frente estamos hoje muito mais em risco do que quando Trump foi eleito. Há menos poder de pressão sobre as autoridades iranianas, as quais aproveitam todos os pretextos para enfraquecer o seu compromisso com a comunidade internacional. É certo que as outras partes não se retiraram do acordo, mas que efeito prático poderá isso ter, quando a estratégia americana de regressar a sanções económicas pesadas implica também para qualquer empresa sedeada em qualquer parte do mundo que as viole o corte do acesso aos bancos americanos?
Donald Trump acredita na guerra económica e o elemento essencial da sua estratégia para o Irão são as sanções. Mas décadas de sanções já demonstraram que, se elas condenam o povo iraniano ao sofrimento e enfraquecem o seu apoio ao regime, nunca o derrubarão, porque ele não assenta na legitimidade democrática, mas na legitimação teológica de um estado policial. Quem, mesmo dentro do regime, acreditou no contrário, acabou sempre morto, preso, banido ou fugido.
O mundo tem um segundo problema sério com o Irão. A sua estratégia de influência no Médio Oriente não assenta no controlo de Estados, mas no treino, armamento e coordenação estratégica de milícias que no Líbano, na Palestina, no Iraque, no Iémen têm capacidade para desencadear guerras civis, para condicionar governos e sobretudo para manter pressão permanente sobre os aliados dos americanos, incluindo aquele que tem mais influência na política americana e dela mais depende, Israel. Essas milícias também tiveram um papel na derrota do Daesh. Mas, com este muito enfraquecido, podem agora voltar às suas prioridades de sempre. Deste ponto de vista, a eliminação do chefe militar supremo da unidade de elite iraniana que prestava apoio e conduzia essas forças é um acto típico das guerras do século XXI. Parece um assassinato de uma pessoa, mas é a eliminação de um puro alvo militar. Os EUA reduziram neste gesto, efectivamente, a capacidade operacional iraniana. Mas, ao fazê-lo, Trump passou uma linha vermelha que nem os EUA nem o Irão haviam alguma vez passado, a da eliminação recíproca de altas figuras do regime. Não é de esperar que o gesto não seja lido em Teerão como uma grande ameaça, nem que deixe de ser incorporado na sua doutrina estratégica e planeamento de acções futuras. Mais, este gesto é completamente contraditório do alegado desinteresse de Trump pela evolução do Médio Oriente e o seu discurso sobre a necessidade de acabar com guerras intermináveis.
Este passo não tornou o Médio Oriente nem o mundo mais seguro. Mas pode ter racionalidade do prisma do apoio aos aliados americanos. A estratégia de Trump, a ter alguma linearidade, é a de dar espaço a Israel, à Turquia e à Arábia Saudita para que tentem dominar a região. A médio prazo, o maior adversário destas três potências regionais é o Irão e neste momento é-o em grande medida, através das milícias que o General eliminado treinava, armava e orientava estrategicamente. Os EUA podem, pois, ter prestado um serviço muito relevante aos seus aliados locais. E como o Irão é um regime mais previsível do que as análises superficiais fazem crer, a resposta iraniana pode ser na região e não necessariamente dirigida directamente aos EUA.
O Médio Oriente continua a arder num conflito mortífero, que já destruiu o Líbano, a Síria, o Iraque e o Iémen e a que assistimos, os europeus, com razoável indiferença, excepto quando gera contingentes de refugiados e emigrantes. E nós só estamos a falar de uma possível guerra entre os EUA e o Irão que não vai acontecer.
Precisávamos de outra estratégia americana para diminuir a instabilidade no Médio Oriente. Mas isso é improvável antes de 2021 e começa a também não ser muito provável depois disso. Pelo que é de esperar que o Médio Oriente continue a arder muito depois de noticiários se afastarem deste episódio, que quer Trump quer os ayatollahs vão enterrar rapidamente.

* Colunista do jornal Diário de Notícias

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