Opinião

O nosso potencial

Sousa Jamba

O ano passado, passei algum tempo na aldeia Camela Amões “recarregar” esta existência de “vida de monte”, lendo e escrevendo. Eu ia para um escritório numa parte da Camela Amões e voltava tarde para a casa onde estava. Felizmente, as ruas estavam sempre bem iluminadas.

No escritório havia um jovem segurança chamado Zé. Ele era muito bem educado e curioso: eu notava nele aquela inteligência inata; ele tinha ambições. O Zé era muito religioso e adorava a sua esposa; um dia ele me apresentou a ela: notei nela também aquela curiosidade circunspecta -- evitar o contacto com os olhos; uma postura reclinante perante um mais velho. Eu conversava muito com o Zé. Embora o Zé não tivesse uma formação sólida, ele tinha ambições e queria saber como é que o mundo lá fora funcionava.
Há dois dias, fui no mercado aqui na aldeia Camela Amões para comprar frutas quando vi alguém a correr para mim cheio de entusiasmo. Era o Zé. Ele disse que estava agora envolvido em instalar tectos e pintar casas. O nosso segurança, vindo de uma aldeia nas vizinhanças da Camela Amões, era agora um pintor que também sabia de tectos. O Zé pode agora encontrar escavadoras na aldeia Camela Amões e que hoje trabalha numa das maiores minas da República Democrática do Congo. O que projectos como o da Camela Amões fazem é desatrelar o potencial da nossa gente.
Curiosamente, no tempo colonial da Federação Centro Africana (Zâmbia, Malawi, Zimbabwe) as autoridades britânicas insistiam que havia trabalhos que não poderiam ser feitos por muitos negros como mecânicos, pedreiros, operadores de máquinas etc, porque isto iria mexer com a mão-de-obra, que tinha que ser bem barata. Até um certo ponto, o caso foi o mesmo no tempo colonial em Angola. Os africanos poderiam apenas passar a massa no edifício e não dominar os outros vários aspectos da construção civil.
Na altura em que conheci o Zé, conheci também jovens arquitectos e engenheiros que estavam a estagiar aqui na aldeia Camela Amões. Depois do jantar, fazíamos passávamos o resto da noite falando de Lê Corbusier ou então do museu Guggeinheim em Bilbão do arquitecto Americano Frank Gehry. Sim, às vezes tinha que ouvir argumentos intermináveis sobre sapatas entre arquitectos e engenheiros… O que era tão interessante é que o empresário Segunda Amões tinha cá um projecto em que vários angolanos poderiam mostrar as suas capacidades. Aprendi muito dos jovens arquitectos e engenheiros; alguns deles insistiam em falar só em Inglês comigo para praticar o seu Inglês já que pretendiam um dia ir para muito alto.
Da mesma forma que a Missão do Dondi, que não fica longe de cá, produziu muitos quadros, Camela Amões está a produzir carpinteiros, pedreiros, motoristas etc que vão ser muito úteis na construção do país. Fui pensando nisto a semana passada quando a aldeia teve a honra de receber o Ministro da Administração Territorial Adão de Almeida e a Governadora da Província do Huambo, a Senhora Joana Lina. Suspeito que o ministro Adão de Almeida tem passado umas horas no ginásio; é que houve grande trechos da sua visita que foram feitas á pé -- o ministro e a governadora visitaram várias instalações do projecto, que agora se estendeu para outras aldeias, andando com muita energia. Gostei muito do gesto destes governantes em reconhecer a capacidade empreendedora do empresário Segunda Amões. Foi bom ver a nossa Governadora a interagir com o povo, ouvindo atentamente as suas preocupações.
Eu venho a seguir o projecto Camela Amões há anos -- sou uma testemunha de como várias famílias viram as suas vidas transformadas positivamente graças às iniciativas do Segunda Amões. Como já disse, tivemos também, aqui na Camela Amões, uma visita do Governador da Província do Moxico Gonçalves Manuel Muandumba. O ministro veio com uma equipa de colaboradores altamente impressionante. Eu notei neles o mesmo entusiasmo para que a sua província tenha várias Camela Amoeses. O Moxico representa dezoito por cento da superfície do território nacional angolano. A província no lado zambiano (a Northwestern province) está a conhecer um desenvolvimento que vai surpreendendo o mundo, graças à descoberta de várias quantias de cobre e outros minerais. Não há dúvida de que estes minerais estão também no lado zambiano. Um Segunda Amões tem a capacidade e experiência de construir estruturas sólidas num curto tempo de espaço. Na Camela, por exemplo, uma fábrica de água mineral já está a ser montada -- o que vai dar empregos a várias famílias. O que uma província do Moxico precisa é de várias Camelas , é aquele espírito que descobre as potencialidades dos cidadãos. No Moxico deve haver muitos jovens como o meu amigo Zé à espera que haja projectos como o que está a mudar a vida de tanta gente cá no Planalto.
Foi bom interagir com gente muito bem informada. Uma das coisas que admiro no Segunda Amões é a sua capacidade de estar sempre pronto a inovar -- muitas das vezes através de perguntas que são feitas do projecto que ele vai inspirando. O governador Muandumba e a sua comitiva vieram para Camela para beber da experiência por cá e explorar a possibilidade de sinergias -- mas havia por cá, também, um profundo espírito de querer aprender da experiência dos outros. Isto foi sempre a essência do espírito do projecto: promover o intercâmbio para fortalecer o nosso know-how.

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