Opinião

O optimismo contagiante do Presidente

Faustino Henrique

O optimismo contagiante do Presidente da República evidenciou-se, há dias, aquando da entrevista que tinha concedido à Rádio Vaticano, na altura em que efectuava a visita de Estado àquele ente encravado na República da Itália e reconhecido internacionalmente como Estado.

Fazendo analogia com uma viagem de avião, com turbulências pelo trajecto, o Presidente deu a entender que a situação social e económica por que passa Angola é temporária e não tarda os bons “momentos da navegação” hão-de chegar. Parecem promessas arriscadas, a julgar pelo estado actual da vida social e económica do país, mas, como deve ser fácil de perceber, o Presidente da República não esteve a falar de ânimo leve ou simplesmente para agradar a quem estivesse a ouví-lo, por um lado. Por outro lado, não há dúvidas de que o Mais Alto Magistrado da Nação se terá baseado nalguma variável ou conjunto de dados que, do ponto de vista da actualidade e da evolução da economia angolana, ao lado dos factores que lhe são endógenos e exógenos, permitem fazer a previsão e vaticínio que fez durante a entrevista.
Quem lidera um país e sobretudo num contexto completamente desafiador, como o actual, em nenhuma circunstância poderá ser o primeiro a manifestar pessimismo. Logo, o optimismo do Presidente, relativamente ao lado passageiro da situação presente, radica não apenas no facto de que o mesmo tem de ser o primeiro a dar amostras de que é possível sairmos todos da actual conjuntura, mas também ser o último a deixar de acreditar na materialização do programa de governação.
João Lourenço disse que, “quando subimos num avião e apanhamos turbulência, os passageiros não se atiram contra a tripulação, porque aí é que seria o fim, e tão-pouco se atiram do avião para fora, porque a turbulência passa. Com os países é um bocado igual”.
Obviamente que a primeira interrogação do cidadão comum, depois do paralelismo traçado pelo Presidente, seguramente confiante nos dados de que dispõe, é saber quais as garantias do Chefe de Estado para a leitura que fez.
“A garantia que podemos dar é que o avião vai chegar ao destino em segurança. É uma questão de apertarmos um pouco os cintos, estamos a atravessar um momento de turbulência, mas dentro de pouco tempo há-de passar. O fim da turbulência vai chegar”, disse o Chefe de Estado, assegurando que o avião vai chegar ao seu destino em segurança. Não foram lançadas palavras de sorte ou, como reza a expressão latina imortalizadas pelo tio-avô do primeiro imperador de Roma, alea jacta est, o Presidente João Lourenço não se limitou a lançar a sorte com a promessa de dias diferentes dos actuais.
Ao contrário de Júlio César, no momento da travessia do rio Rubicão, o optimismo contagiante do Presidente João permite concluir que há previsões sobre a evolução positiva das coisas e que estas não se resolverão na base da sorte.
É verdade que os indicadores sociais e números da economia quase parecem vaticinar uma trajectória incontornável, com perspectivas que tornam quase inacreditáveis as palavras do Presidente, mas as incertezas dão lugar ao benefício da dúvida. Estamos todos na expectativa de que o desempenho da equipa económica do Executivo, ao lado do engenho e activismo dos seus parceiros, sirvam para contrariar a tendência altista do desemprego em Angola, apenas para mencionar esta variável.
É verdade que a questão do desemprego não deve ser unicamente imputada ao Executivo, mas não há dúvidas de que grande parte do ónus recai para aquela entidade na medida em que, se por um lado, é a economia que cria os postos de trabalho, por outro, são as políticas que a viabilizam. Quanto maior for o empenho do Executivo e do legislativo na criação de políticas que se traduzam em incentivos fiscais, na liberalização geral da actividade económica, na facilidade de criar empresas e postos de trabalho, no combate aos grupos que promovem ou alimentam os monopólios e oligopólios, herança do passado recente, o resto ocorre normalmente. É preciso dar espaço para que, ao nível do campo e da embrionária indústria transformadora, existam operadores que pretendam ir além das estatísticas e tenham presença efectiva no crescimento do PIB. Em determinadas esferas, é tempo de vermos já algumas mudanças e transformações que permitam que o optimismo contagiante do Presidente se imponha como uma espécie de força motivacional de todos os angolanos para arrebatar inclusive os que menos crêem na agenda governativa do Executivo.
Mas é preciso coragem e decisão política firmes que incidam vigorosamente sobre o que está mal para que nos certifiquemos todos de que vale a pena nos deixarmos todos contagiar com o optimismo do Presidente da República.
Sabemos todos que os fenómenos económicos, nem sempre dependentes de factores internos, são, algumas vezes, inesperados e incontroláveis, tornando difícil todo e qualquer exercício de crença na evolução posterior e positiva da situação económica de Angola.
Esperemos todos, quais passageiros sentados no interior de uma aeronave, com cintos ajustados, cada vez mais apertados, pelo fim da turbulência que, como prometido pelo Presidente, “dentro de pouco tempo há-de passar”. Acreditamos todos no optimismo contagiante do Presidente João Lourenço que, não sendo infalível, tudo faz para que as suas previsões e expectativas vão ao encontro do que todos pretendemos como evolução positiva da vida social e económica de Angola.

 

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