Opinião

O papel da Igreja no momento actual

Fonseca Bengui

Nestes dias de agitação e ansiedade que o país vive, com a vigência do Estado de Emergência, decretado pelo Presidente da República, para conter a propagação da pandemia do Covid-19, a Igreja pode desempenhar dois papéis importantes.

Pode assumir-se como agente mobilizador dos membros e da sociedade, de uma maneira geral, para o cumprimento das medidas decretadas pelo Governo. Com a proibição dos cultos, pelo Decreto que regulamenta o Estado de Emergência, as lideranças das igrejas devem ser proactivas, fazendo recurso às novas tecnologias de informação para interagir com os membros, sobretudo através do telemóvel.
Através deste meio, os líderes podem enviar, aos membros, não só mensagens de encorajamento e conforto para enfrentarem o momento actual, como também apelos para acataram as orientações impostas pelo Estado de Emergência - permanecer em casa, evitar ajuntamentos - bem como as medidas de higienização orientadas pelo Ministério da Saúde. Este trabalho não precisa de ser feito, necessariamente, pelos líderes máximos das congregações ou paróquias. Pode estar a cargo dos líderes dos vários departamentos da Igreja (juventude, homens, senhoras) ou células.
Esta abordagem é válida mesmo para aquelas igrejas que já dispõem de estações ou programas de rádio e canais ou programas de televisão. Porque estamos a nos referir a abordagens directas aos membros. Pois, além dos apelos veiculados na comunicação social, os crentes precisam de sentir a presença dos seus líderes a falar sobre os comportamentos que devem adoptar face à pandemia que o país e o mundo enfrentam. Aliás, as lideranças das nossas igrejas deviam assumir sempre esta postura em todas as questões de interesse nacional, desde que não envolvam disputas político-partidárias.
Outro papel que as igrejas podem desempenhar no momento actual é de assistência aos mais necessitados. Não me refiro à promoção de campanhas de grande vulto para apoiar lares da terceira idade ou centros de acolhimento de crianças abandonadas, que também merecem a atenção das igrejas. Refiro-me aos necessitados das nossas próprias comunidades: viúvas, órfãos, desempregados, vendedores ambulantes, vendedores de bens não essenciais, cuja actividade foi proibida, profissionais que dependem de biscates ou aqueles cujos recursos não são suficientes para a sua subsistência e que vêem a situação a agravar com as restrições impostas pelo Estado de Emergência. As igrejas têm a obrigação de proporcionar assistência alimentar a essas pessoas que estão no seu meio. Não devemos esperar que seja apenas o Estado a fazê-lo.
A este propósito, devíamos seguir o exemplo da Igreja primitiva, conforme o relato que encontramos nos capítulos dois e quatro do livro de Actos. Diz um dos textos: "Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade". Não estou a sugerir que a Igreja volte aos tempos do século I, apelando cada membro a vender o que tem para distribuir o seu produto a todos. Mas podemos seguir o exemplo, adaptando-o à nossa realidade: quem tem deve partilhar com quem não tem. Este é, sem dúvida, um dos papéis que a Igreja deve assumir no momento actual.

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