Opinião

O populismo, Fake News e o desprezo pela verdade

Eduardo Magalhães |

O populismo - à esquerda e à direita do espectro político - ganhou nos últimos anos a capa de “aceitável” graças ao poder de certos grupos políticos de sufocar cidadãos de diferentes países com as notícias falsas (conhecidas como fake news) e a chamada pós-verdade, uma fusão de algumas informações verdadeiras (hora, data e local, etc.) com um roteiro que se assemelha ao de um filme de péssima qualidade.

A manipulação da informação tem sido fortalecida na distração dos profissionais do jornalismo e de um público acostumado a consumir acriticamente as notícias. Quando ambos permitem passar por notícia aquilo que é apenas um boato, por exemplo, acaba por contribuir para transformar em arma o populismo, o extremismo e tudo o que decorre de alguns dos piores sentimentos - alimentados subjectivamente - inerentes à condição humana.
No entanto, convém destacarmos que a indiferença sobre a verificação das fake news por parte de muitos jornalistas é o factor que mais contribui para a transformação das redes sociais num tribunal popular. Através da mentira, cultura da violência e incentivo à intolerância, essas plataformas de comunicação passaram a ser estrategicamente usadas como arma de intervenção política, municiada sobretudo pelo ódio.
As fake news são alimentadas também pelo perigoso “viés de confirmação”. Muitas vezes, pessoas com elevado grau de formação académica em determinadas áreas do conhecimento apresentam comportamento semelhante ao mais simples ou ignorante cidadão de senso comum. Isso é explicado apenas pela condição de sermos humanos, passíveis de darmos prioridade ao conforto daquilo que conhecemos e estarmos, quase sempre, a ignorar a necessidade de conhecer o novo sem preconceitos.
Se antigamente a comunicação predominante era caracterizada por um modelo que colocava o receptor na condição de consumidor passivo de notícias, nos últimos anos estamos a viver um modelo ainda em busca de definição, mas que é caracterizado pela predominância de pessoas ávidas por opinarem sobre aquilo que não conhecem ou que “ouviram dizer” e outras que temem o debate. Por isso, por mais mentirosa que uma notícia possa ser, muitas vezes o grito do ignorante, para impor a sua aparente certeza, prevalece e é adoptado como verdadeiro pelos demais.
Assim, ressurge o fascismo e o populismo nos dias de hoje. O apelo a um nacionalismo contraditório e a repetição de mentiras constroem uma falsa narrativa de fácil assimilação que acaba por encontrar um universo muito grande de simpatizantes. A transferência do erro para o outro é um misto de catarse (alívio das tensões) e exercício de vingança para muitas pessoas que canalizam as suas próprias frustrações ao assimilarem as mensagens fascistas como um manual de militância política.
Deste modo, como algumas seitas religiosas pregam aos seus fiéis que todo aquele que discorda dela é “o inimigo”, o discurso populista actual elegeu o Estado como inimigo e nega a política para exercê-la de maneira autoritária e inquestionável. O recurso de resgatar um passado que nunca existiu, perfeito e onde todos tinham emprego, escola, etc., desperta a memória infantil de alguns incautos e faz crer que “é preciso resgatar o passado que os inimigos destruíram”.
A comparação entre realidades completamente paradoxais é também um método de construção da fake news e pós-verdade. Muitas vezes, cidadãos que vivem fora dos seus países de origem passam a assumir um papel de “dono da verdade” ao ostentarem uma melhor condição de vida na diáspora, muitas vezes totalmente falsa e que serve apenas para alimentar a “síndrome de pequeno poder” que exercem ao mostrarem que “a minha vida é melhor do que a sua”.
Em síntese, a ignorância e a preguiça - que são inerentes à condição humana - contribuem directamente para a expansão da ideologia populista actual. Jornalistas e leitores com algum poder cognitivo acabam por minimizar a importância da pesquisa sobre determinados temas e são também agentes disseminadores dos boatos em forma de verdade absoluta. É preciso maior rigor na checagem dos factos e também desenvolver mecanismos, inclusive legais, que inibam o oportunismo que alimenta esta onda de ódio e preconceito actualmente predominante.
* Director Nacional de Comunicação Institucional.
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