Opinião

O ranger dos ajustes

Eduardo Magalhães |*

Não há disciplina das ciências de Comunicação para a qual se olhe neste momento e em que não se perceba as dúvidas e ameaças da disrupção - (rotura ou descontinuidade) - dos media tradicionais pela internet e as redes sociais, mudando relações, modos de consumir informação, de se entreter e fruir das linguagens artísticas transmitidas em massa.

Quando se fala do jornalismo, do cinema, da TV, da rádio, do marketing e da publicidade do século XX, parece que não nos referimos apenas a um lapso de 20 anos. Nunca um século anterior pareceu tão distante do actual. Falamos como se então nos comunicássemos por conversa ao pé do lume ou por tambores.
Chegam com frequência da Europa e América notícias sobre o fim das edições impressas de jornais e revistas tradicionais, a redução das redes de TV, a ida ao cinema substituída pela escolha de um menu de canal por assinatura ou streaming.
À escala global, lamenta-se a perda da atenção aos livros, à conversa e aos meios tradicionais, para o pequeno ecrã dos telemóveis que cada vez mais vão magnetizando os olhares dos mais jovens. Por todo canto se anuncia o fim da comunicação como a conhecemos.
Neste novo século, em que Angola apenas ensaia a sua comunicação comunitária, ao mesmo tempo vêm de fora as notícias de manipulação secreta dos big data que desvelam a intimidade de cidadãos e colocam sérias ameaças aos processos democráticos.
É certo que as formas de se atingir os corações e mentes de toda uma geração são diferentes. As formas de comunicação pela música, pela TV e em outros meios está a mudar a cada dia. Em poucos anos, será possível que o cidadão ao acordar seja avisado pelo espelho da casa de banho sobre os seus compromissos do dia. Os objectos terão inteligência artificial e “conversarão” com os donos da casa.
Ao mesmo tempo, se caminharmos pelo nosso país, veremos o quanto a comunicação social ainda precisa cumprir tarefas antecedentes como os canais de rádio comunitários, a imprensa regional ou local e a segmentação da informação para atingir grupos inalcançados.
Será que corremos o risco de enfrentar a disrupção da comunicação antes mesmo de ter a chance de estender a malha básica da informação para todos e em todos os modos necessários?
Quanto disso é sentença de condenação sem recurso e quanto é apenas o ranger do movimento de ajuste entre tecnologias novas e mais antigas? Este é o desafio com que todo mundo se defronta e cá em Angola não é diferente.
Pela primeira vez na história da humanidade, os mais experientes não detêm o monopólio da experiência profissional e técnica a ser transmitida aos mais novos. Quantos dos mais velhos já não se viram na contingência de pedir auxílio a um jovenzinho para realizar e compartilhar um texto no seu computador ou fazer um acesso simples a uma informação do telemóvel?
Esta nova relação acaba por abalar formatos tradicionais de transmissão de conhecimento e mundo afora em escolas, escritórios e redacções, não é absolutamente normal que jovens afrontem os mais experientes.
O processo de aprendizado constante que todo profissional deve fazer – notadamente o profissional da Comunicação Social – precisa ser acelerado. As mentes precisam se abrir. Os mais jovens devem entender que a experiência e o tempo decorrido na profissão não se reflectem apenas em conhecimentos dos modernos equipamentos. E quem calejou as mãos com máquinas fora de moda, gravadores e câmaras superados, precisa saber que seu saber deve procurar os novos caminhos para fazer as mensagens chegarem assertivas e serem entendidas.

* Director Nacional de Comunicação Institucional.
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