Opinião

O recado dos candongueiros

Adriano Mixinge

Qual é a coisa qual é ela, parece ser uma caixa de fósforo mas não é, o Paulo Flores sugere que voam, são pintados com duas das cores dos céus, mas estão mesmo na terra, neles é possível detectar tantos rostos como numa igreja e, não importa se há ou não engarrafamentos, eles atravessam orgulhosos as ruas da cidade, sempre dispostos a mudar a vida, o olhar ou as experiências de quem neles subir?


Tanto os autocarros como os kupapatas, com as suas motorizadas, são os seus maiores concorrentes. Quando passam à minha frente, aprecio-os calmamente como se fossem confortáveis e arejados, - coisa que, no geral, não o são -, deixando-os passar para, como se diz na gíria, depois, ler-lhes a matrícula: surpreendem-me os ditados, as frases, os dizeres ou até mesmo, como tenho visto ultimamente, os objectos que trazem sobre o seu vidro traseiro como se de declarações de princípios se tratassem – e, em parte, o são.
Há que ter medo deles se, de repente, aparecerem na estrada à noite e, ainda por cima, com os vidros completamente fumados. De dia, pululam às centenas pelas ruas das cidades e das suas periferias carregando, para lá dos sobressaltos e de todos os constrangimentos, o peso de muitas vidas, os sonhos, as alegrias, as angústias e as decisões de cada passageiro que sobe resignado às suas entranhas para, ora entalado ora um pouco mais à vontade, afirmar a sua persistência e o seu à vontade em sobrepor-se a qualquer obstáculo, na vida.
Surgiram entre fins dos anos 80 e princípios dos anos 90 do século passado, coincidindo com a instauração da economia de mercado e de imediato transformaram-se no meio de transporte mais célere e preciso para, a um preço razoável que não é necessariamente barato, mover-se de um lugar para outro da cidade, que se foi alargando sobre quilómetros e quilómetros de areia vermelha: é uma bênção para as pessoas mais humildes.
Utilizá-los poderá indicar o status social do passageiro, mas a margem de erro é enorme, uma vez que boa gente socorre-se deles por serem, - apesar de perigosos e conduzidos, vezes sem conta, em arrepio às normas e às leis de trânsito -, mais rápidos. Sobre eles, há duas coisas que todos falam mal: ter que andar dentro dele sentindo, nas nádegas, o calor da baúca, - essa zona abobada e quente que é reflexo da quentura do motor – e, também, o facto de que neles podemos encontrar muitos mais cheiros do que num laboratório de química.
Quando os há, os estofos sempre surrados ou os pequenos bancos de madeira que, muitas vezes, encontramos no seu interior, têm inúmeras histórias para contar. No banco de madeira, muitas vezes, fica sentado o cobrador, que não perde a ocasião de pôr fora metade do corpo, quando não a cabeça ou o braço. As carroçarias dos candongueiros têm a resistência dos ferros, o seu fôlego dá para ouvir com a rouquidão dos motores e, nas chaparias, nas portas e nos para-choques, vêem-se logo os sinais do tempo, as esfregas do dia-a-dia ou as marcas de um destino tão vadio quanto necessário.
Fazer pulular candongueiros pela cidade ainda compensa e, também, continua a ser rentável: ninguém sabe bem o que acontecerá quando surgir mesmo um metro de superfície, ou outro qualquer. Os candongueiros são muitos: menos mal que têm as cores azul e branco, porque senão nos atordoariam ainda mais, nesse jeito deles tão característico de fazer piruetas ali onde bem lhes apetece, desenhando no pavimento as minhas inesperadas trajectórias, colocando-se nas posições mais agressivas que, por regra, agradecem antecipadamente com o polegar em alto, querendo dizer “relaxa já estou mesmo a passar e não podes fazer nada para impedi-lo”.
Não há dia que não repare nos ditados, dizeres e dicas que eles nos trazem nas laterais ou na parte traseira dos carros: “Quem não está connosco, está contra nós”, “Os invejosos pensaram que me iriam afundar”, “ Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém”, “Agora estão anos sentir”, “Estamos sempre a subir”, “Tamu a vir”, “Queriam me apagar, mas não conseguiram”, “Trabalha e deixa de invejar o sucesso dos outros”, “Os do Rangel”, “ Deus está connosco”, “É só orar”, “Respeita o king”, ou “Abaixo os marimbondos”, entre muitos outros.
Os ditados, expressões, dizeres, frases e dicas que as vans dos candongueiros trazem na parte de trás narram todas as etapas da nossa história mais recente e, portanto, decifrá-los ajuda a entender tanto o grande enigma que é a vida de cada um dos seus motoristas, em particular, como os desafios mais importantes das nossas vidas, da nossa sociedade e do nosso país: é razão suficiente para respeitá-los.

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