Opinião

O roteiro do calar das armas

Carlos Calongo

Em grande medida, o alcance da paz e da segurança são as premissas essenciais para que o continente africano consiga se posicionar na rota do desenvolvimento e concretizar o potencial de recursos que possui em acções que resultem na melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes.


Mais do que acções inscritas na abordagem política dos estadistas, visando o cumprimento da Agenda 2063, o compromisso expresso na última cimeira de Addis Abeba resume, em larga escala, uma interpretação algo mais extensiva, de como será efectivado o roteiro do silenciar das armas.
Verdade pura e dura, por enquanto, o desejo dos Chefes de Estado e de Governo ganha, em largas milhas, qualquer resposta imediata que diga sim ao calar das armas no continente africano.
Entretanto, faz-se necessária a presença de outras vontades e interesses extra continental, que se não forem bem equacionadas, ditarão a duração dos conflitos armados por longos e infelizes anos, retirando-se disso vantagens, infelizmente nunca para os africanos.
A guisa de exemplo, não se pode falar em silenciar das armas com países ténues do ponto de vista de orçamentos para os órgãos de defesa e segurança, aspecto que potencia a presença de bolsas de conflitos armados, para lá de outras bastantes razões que originam climas de instabilidade no continente.
Neste particular, apenas se faz referência aos conflitos cujo rosto é visível e as razões conhecidas, como aqueles que se desenrolam no leste da República Democrática do Congo, só para citar este, longe da nova configuração de conflitos que atende pelo nome de terrorismo, muitas vezes ocultos na comunhão da “mesma mesa e cama”, o que muito difícil de combater.
De memória, o continente africano é palco de uma série de conflitos, consequência da intervenção colonialista, principalmente no fim do século XIX e início do século XX, processo de intervenção que pode ser entendido com forte motivação para a criação de situações de instabilidade política, económica e social, que derivam em conflitos que até hoje perduram.
Pode, igualmente, ser ainda referida a di-visão territorial do continente, que segundo historiadores, teve como critério apenas os interesses dos colonizadores europeus, que desprezaram as diferenças étnicas e culturais da popula-
ção local, e permitiram a eternização de certos conflitos em África, cuja resolução também, não passa apenas pelo calar das armas, mas sim pela resolução de outras questões paralelas.
Lembra a história que, após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu um intenso processo de independência das nações africanas, com novos países a se formarem sobre a mesma base territorial construída pelos colonizadores europeus, desrespeitando a cultura e a história das comunidades.
Neste particular, o conflito não termina apenas com o calar das armas.
Consequentemente, inúmeros conflitos étnicos pela disputa de poder foram desencadea-dos no interior desses países, para lá de outros factores agravantes para o surgimento desses conflitos na África, tais como o baixo nível sócio-económico de muitos países e à instalação de governos ditatoriais.
Portanto, são vários os conflitos no continente africano; o que é pior, muitos deles estão longe de um processo de pacificação.
A maioria dos conflitos é motivada por diferenças étnicas, como os que acontecem no Ruanda, Mali, Senegal, Burundi, Libéria, Congo e Somália, por exemplo, à margem dos outros originados por disputas territoriais como na Serra Leoa, Somália e Etiópia, só para citar estes. Por outro lado, há que não ignorar as questões religiosas que também geram conflitos, como o que acontece na Argélia e no Sudão.
Dos conflitos em África, a história jamais esquecerá que o de maior repercussão foi o Apartheid na África do Sul - política de segregação racial que foi oficializada em 1948, com a chegada ao poder do Novo Partido Nacional (NNP), que não permitia o acesso dos negros às urnas, além de não poderem adquirir terras na maior parte do país, obrigando os negros a viverem em zonas residenciais segregadas, uma espécie de confinamento geográfico.
Se do ponto de vista estratégico-político este conflito faz parte do passado, as suas repercussões ainda têm pernas para, volta e meia, promoverem bolsas internas de conflitos, que em nada promovem boa memória para os africanos, de um modo geral, com toda a lamúria deles decorrentes.
A efectivação do roteiro do calar das armas, bem vindo, deve contar com a intervenção de organismos internacionais para que esse e outros problemas do continente africano sejam amenizados, pois esse processo é, em parte, consequência das políticas de certos países desenvolvidos, cujo apetite pela riqueza desse povo africano, parece os consumir de forma perene.

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