Opinião

O saco de café (Carta aberta à Senhora Ministra da Saúde)

José Luís Mendonça

No meu tempo de candengue, parava sempre ali perto do entroncamento depois da fábrica da Cuca quem vai para a Mabor, a apreciar os bravos estivadores do tempo colonial a ensacarem café e encherem as carroçarias dos camiões que o levavam ao Porto de Luanda. Havia no grupo um estivador cahenche, do tipo Maciste, o gladiador dos filmes, que dava respeito só de lhe olhar a levantar o saco de café como quem levanta uma galinha. Mas havia lá dentro do armazém um grupo de dez homens munidos de grossas agulhas que cosiam os sacos depois de cheios e pesados numa balança industrial. A corda de coser era de sisal e a boca do saco fechava-se com as marcas das costuras e do fio entrelaçado.

No meu tempo de candengue, parava sempre ali perto do entroncamento depois da fábrica da Cuca quem vai para a Mabor, a apreciar os bravos estivadores do tempo colonial a ensacarem café e encherem as carroçarias dos camiões que o levavam ao Porto de Luanda. Havia no grupo um estivador cahenche, do tipo Maciste, o gladiador dos filmes, que dava respeito só de lhe olhar a levantar o saco de café como quem levanta uma galinha. Mas havia lá dentro do armazém um grupo de dez homens munidos de grossas agulhas que cosiam os sacos depois de cheios e pesados numa balança industrial. A corda de coser era de sisal e a boca do saco fechava-se com as marcas das costuras e do fio entrelaçado.
Pois saiba, Vossa Excelência Ministra da Saúde, que vi na segunda-feira, dia 15, com estes olhos que a terra nunca há-de comer, um cidadão cosido assim mesmo, como o saco de café do tempo colonial. O referido cidadão, do qual tenho as coordenadas se a Senhora Ministra quiser comprovar com o seu olho clínico que não estou a mentir, abriu a camisa e mostrou-me a barriga com um corte desde o umbigo à virilha. Foi-lhe feita, em finais de 2018, uma intervenção cirúrgica num dos mais emblemáticos hospitais públicos de Luanda, para lhe extirparem um quisto e uma apendicite. Fiquei totalmente horrorizado quando olhei para aquela costura anti-cirúrgica e associei-a de imediato aos sacos de café que via coser lá no entreposto comercial da Cuca, onde o Maciste angolano os levantava como quem levanta uma galinha.
E é por isso que eu, que tenho a graça divina de nunca ter feito nenhuma operação, temo por mim, se um dia tiver de ir a um hospital público para o efeito. Quem vai coser a minha barriga? O mesmo “cirurgião” que coseu a barriga do cidadão de que vos falo? Teria sido um verdadeiro médico ou um sapateiro? Os hospitais públicos, Senhora Ministra, trabalham com sapateiros?
Vossa Excelência, quando aceitou o cargo, sabia dos desafios que a esperavam? Se a Senhora Ministra aceitou esse cargo e foi lá ao Palácio da Cidade Alta assinar o termo de posse, tinha de estar consciente do seu trabalho. Isto que eu estou a contar aqui no jornal, devia ser a Senhora Ministra a relatar à Sua Exa. o Sr. Presidente da República. Porquê e para quê?
Porque o nosso PR deve estar ciente dos graves problemas que as instituições do Estado e a população enfrentam. Ao estar ciente dessa realidade, o Chefe do Executivo estará em condições de accionar os mecanismos financeiros e técnico-materiais para dotar os recursos humanos das unidades hospitalares de capacidade e competência médica para propiciar aos doentes o modelo de tratamento universal e moderno.
A intervenção médica danosa e defeituosa sobre o organismo humano, em pleno século XXI, é um insulto contra a nossa capacidade de raciocínio própria dos humanos, e viola as regras de deontologia profissional médica, que derivam há milénios do pensamento inovador de um cidadão grego chamado Hipócrates. Ora, se o “cirurgião” que operou o cidadão de que aqui falo fez o curso de Medicina, então leu o juramento de Hipócrates. Se o não leu e não o cumpre, deve ser reciclado e ensinado a terminar cirurgias. Chamam médicos da Espanha ou de Portugal, para treinarem os nossos médicos.
Eu nem sequer enfermeiro sou, não tenho sensibilidade para ver sangue, mas sei de antemão que hoje em dia as operações cirúrgicas têm outro nível de acabamento. Um amigo meu foi operado ao coração num hospital de verdade, abriram-lhe a caixa torácica, mas se olharmos para o peito dele, só vemos um traço finíssimo da espessura do fio de uma faca. Nem o ponto onde a linha faz o nó se vê. Mulheres que fazem uma cesariana num hospital de verdade e do seu útero se extrai um bebé apresentam uma simples linha de corte junto à virilha. Como é que no caso deste cidadão, há uma cicatriz enorme, de alto a baixo, o traço da abertura tem cerca de dois milímetros de espessura e nota-se os pontos onde a linha penetrou e saiu da pele? É horroroso ver esta cicatriz.
Não pode o Ministério da Saúde fazer uma inspecção criteriosa e ver quem, afinal, anda nos nossos hospitais públicos a coser pacientes como quem cose um saco de café?
Pode ou não pode, Senhora Ministra da Saúde?

 

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