Opinião

O segredo da IURD

Sousa Jamba

Sou da IECA, (Igreja Evangélica Congregacional de Angola). A minha família está ligada a esta organização desde a sua fundação em Angola há mais de um século atrás. Mas sou profundamente tolerante de outras religiões; isto tem a ver com a minha infância na Zâmbia.

Na Zâmbia, éramos membros do equivalente da IECA, a United Church of Zambia, que tinha muitos adeptos. Lembro-me claramente que quando, com dez anos e não dominando bem a língua Inglesa, eu tinha que ir para a escola dominical onde havia muitos meninos brancos — filhos de técnicos europeus que trabalhavam nas minas. Os meus colegas na escola dominical, brancos e negros, eram muito simpáticos. Lembro-me de que havia, também, um rapaz de origem chilena, que também tinha dificuldades em exprimir-se em Inglês. Adorávamos as canções em Inglês que aprendi e canto até hoje.
Na altura, vivíamos no bairro chamado Twapia, na cidade mineira de Ndola, na Zâmbia. Tínhamos uns vizinhos da etnia Lunda que pertenciam a uma igreja que falavam em línguas e de vez em quando, saltavam fogueiras sem se queimar. Depois havia os muçulmanos malawianos, senegaleses e somalis. O nosso bairro estava também muito perto do crematório dos indianos.
Depois fui para a Europa e aos Estados Unidos com as suas várias igrejas e religiões. Voltei para Angola e notei que muitos jovens tinham deixado a IECA para confissões mais carismáticas, algumas pregando a Teologia da Prosperidade como a Igreja Universal do Reino de Deus.
Nos últimos dias, depois de pastores Angolanos terem tomado conta de templos da IURD, alegando más práticas (racismo, vasectomias involuntárias, lavagem de dinheiro etc) houve um fervor patriótico em que mesmo gente que nunca abriu uma Bíblia foram fazendo acusações contra a igreja. Parece que num dos templos, a bandeira Angolana substituiu a bandeira brasileira. O Bispo Edir Macedo dirigiu palavras ásperas contra os “rebeldes angolanos” — isto foi interpretado como sendo uma maldição contra todos os angolanos. O destino dos templos da IURD passaram logo a ser ligados à soberania Angolana.
Depois de todo clangor, deveria haver uma análise fria das coisas. A História do Cristianismo é a história de discórdias, o velho Luther, escreveu as suas 95 Teses, que, alega-se, ele martelou a porta da igreja para declarar o seu descontentamento com o Catolicismo. Aqui no Planalto, há a IECA e a IESA (Igreja Evangélica do Sul de Angola) cujos líderes, nas aldeias, de vez em quando entram em brigas acaloradas. Os pastores e bispos da IURD poderiam muito bem desfazer-se da liderança brasileira e ter uma outra igreja. O problema é que não é nada fácil. No Zimbabwe, quando os negros invadiram as fazendas dos brancos, muitos nacionalistas negros aplaudiram, meses depois, as fazendas estavam cobertas de capim porque ninguém sabia operar as mesmas.
Os angolanos têm um hábito muito perigoso: um desejo profundo de quererem dar nas vistas sem, muitas das vezes, sem estarem prontos a dedicarem-se ao trabalho árduo e difícil que faz a diferença. Os pastores e bispos angolanos da IURD deveriam ter aprendido muito mais além dos sotaques brasileiro na organização a que pertenciam.
A IURD é uma espécie de multinacional que é altamente eficiente. Na IURD não é apenas uma questão do dízimo; na IECA temos também pago o dízimo mas as nossas igrejas não são comparáveis às da IURD. Já assisti sessões da IURD no Huambo por várias vezes. Uma das coisas memoráveis do local foi o conforto, dentro da igreja havia um bom sistema de ar condicionado. A IURD investe, sim, na suas infra-estruturas que fazem com que estas passem a atrair a muita gente.
No Huambo, uma vez, fiz questão de fotografar livros que as pessoas estavam a ler. Uma boa parte das senhoras estava a ler obras de Edir Macedo; o marketing desta organização é impressionante. Depois há, também, aqueles programas de televisão. Estamos a falar aqui de um programa de Marketing sofisticadíssimo.
As operações da IURD dariam para um bom estudo de como os negócios devem ser geridos. Nunca vi um templo da IURD numa área pobre de Angola. Os estrategistas da IURD têm como o seu alvo a classe média (e aqueles que aspiram à mesma). Este segmento da sociedade é vastíssimo. Depois há a mensagem da prosperidade, este mesmo segmento da sociedade é que mais sofre de uma ansiedade de não pertencer, propriamente dito, ao topo — orando, dando o dízimo, e nunca faltar à igreja, que poderá garantir a promoção ou o contrato. Este é, também, o local de convívio com gente com os mesmos valores etc. Isto tudo não foi feito num instante, houve muito trabalho para se conseguir tal sucesso.

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