Opinião

O sindroma dos quarenta

Fragata de Morais

Quando cheguei aos quarenta, talvez por me sentir muito mais jovem do que isso, não sofri essa afamada crise existencial.

Começou a manifestar-se após os meus setenta e daí talvez tenha ido para as aulas de karaté, que religiosamente observo, quatro vezes por semana. Com a minha cara metade, devo mencionar pois ele está mais avançada do que eu na arte e não vá desejar cobrar a omissão com uma pequena demonstração considerada de prazenteira.
Todavia recordo-me de um dilecto amigo que chegado à da meta quarentona, desenvolveu uma invulgar preocupação existencial.
De súbito tudo deixou de ter significado e o mundo que lhe era tão belo, tornou-se num grande e infindável ponto de interrogação, perdido no cosmos da sua ansiedade. Navegava, agora, num mar de questionamentos e dúvidas. O coitado sofria, ou pelo menos assim parecia porque julgava ter atravessado o Rubicão. De repente sentia-se velho, via-se avô desde que a Paulinha, a filha, anunciou a sua gravidez. A revelação cilindrou-o com o peso de uma manada de elefantes.
Começaram, então, as agonias e as longas noites de ansiedade.
O Joca, o tal amigo de quem falo, que ocasionalmente parava em minha casa, começou a aparecer mais amiúde. Determinou que seria ali que a sua canoa existencial soçobraria ou seria levada a bom porto, as suas dúvidas seriam ali esclarecidas e a ansiedade eliminada.
Não que eu assumisse qualquer papel psicanalítico funcional, esse desempenho estava reservado à garrafa de whisky, porém eu possuía a feliz capacidade de nos intervalos dos seus extensos monólogos despertar metodicamente com um “pois é, pois é” salvador. Ficava, deste modo patente o sentimento de carinho e interesse devotados.
O Joca, numa noite de particular angústia, revelou-me que negara fogo, no campo das doces batalhas conjugais. O monakaxitu não disparara, disse-me, como se alguma vez tivesse sido militar.
“Possas, pá! Não consegui o segundo tiro da noite, pela primeira vez”, informou, torturado.
Ao rir-me, cortou relações comigo ás três da manhã, por achar que a minha desatenção e falta de solidariedade tinham ultrapassado os limites da tolerância e da amizade. Eu não havia, segundo ele, levado a peito a sua angústia.
É que, para não o estar a ouvir mais sobre as suas refregas conjugais, eu perguntei ao Joca se ele conhecia a diferença entre o medo e o terror.
Claro que ele não conhecia, muito menos depois de meia garrafa de whisky já varrida. Quando olhou para mim com olhos de carneiro mal morto, eu, ferino, expliquei-lhe que medo, era aquela situação que ele me descrevera, não conseguir o segundo tiro da noite pela primeira vez, para usar as suas palavras. E que se não parasse com essa conversa mole, terror, seria o que conheceria em breve, ao não conseguir o primeiro tiro da noite, pela segunda vez.
Isto será razão para bons amigos se zangarem?

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia