Opinião

O valor do juramento

Arlindo dos Santos

É um testemunho da natureza vinculativa dessa promessa. Jura-se solenemente quando se toma posse para exercer um cargo público, numa cerimónia de matrimónio, onde e quando se prometem reciprocamente felicidade e fidelidade eternas, o vulgo “até que a morte nos separe”, jura-se quando, em representação de uma determinada entidade ou instituição, as pessoas se comprometem a defendê-la de todos os actos irregulares ou roçados pela indecência; juram os militares em parada, os magistrados e as forças da ordem; jura-se, geralmente, cumprir e fazer cumprir, por todos os meios, a Constituição da República, a Lei magna do país.

 Entretanto, o cidadão comum habituou-se a jurar pela sua santa mãezinha, por Deus Santíssimo, pelos sapatos do padrinho, pelo sangue ou pelas cinco chagas de Cristo. Jura por qualquer motivo, sempre com a maior leviandade, sem respeito nenhum pelas entidades invocadas na jura. Este tipo de atitude contribui para que, assim tratada, a palavra dada, o comprometimento público e solene, o tal juramento, passe a banalizar-se e a nada representar. Deixei de acreditar em juramentos, quando, por algumas experiências vividas, passei a não confiar nas pessoas. Hoje, contam-se por poucas, aquelas em quem confio verdadeiramente. Passei, por isso, a ser um homem desconfiado. Não fui influenciado pelo Sermão da Montanha, onde Nosso Senhor Jesus Cristo proibiu taxativamente que o seu povo proferisse juramentos, nem foi por essa via que me juntei ao grupo daqueles que se perguntam sobre como pode então a igreja não apenas permitir, como até exigir, o juramento por parte dos seus filhos. O controverso Paulo Coelho, garante que Jesus Cristo terá dito um dia, “que o seu sim seja sim, e que o seu não seja não”. A afirmação junta-se às muitas que vão adensando os inúmeros mistérios que povoam a Igreja Católica!
Em Angola, como em muitas partes do mundo, a palavra comprometedora, mesmo em círculos altamente representativos, raramente tem força, muito menos cumprimento, pelo que, cumprir ou não determinada obrigação contratual, o não pagar uma dívida, o obsceno e descarado “virar o bico ao prego”, tornaram-se entre nós coisas banais. Nos casamentos, de um modo geral, faz-se hoje da palavra dada perante Deus e os homens, a coberto da solenidade da praxe, uma coisa vã, sem qualquer significado. Não é por acaso que muitos casamentos, de variadas classes sociais e de família, se vão dissolvendo a um ritmo que, tem tudo para ser preocupante. Claro que existem sempre as excepções, mal de nós se elas não existissem! Porém, é indesmentível que se regista numa maioria de casos, o rompimento do compromisso feito sob juramento, na igreja ou fora dela, um ou dois anos passados sobre o momento inesquecível, quantas vezes antes, o que demonstra a pouca consistência, a falta de moral e credibilidade que impera na instituição familiar angolana, precisamente aquela que deveria ser uma das bases mais sólidas da educação da sociedade. Há, de facto, e ninguém pode desmentir isso, a existência de uma paupérrima educação das famílias, curiosamente até daquelas de maiores posses e responsabilidades, que deveriam dar bons exemplos. E é nessa senda que vão acontecendo os mais diversos desvios, uns derivados de pobreza extrema, outros de riqueza excessiva. Nesta última situação, prevalece a vaidade, o sentimento do quero, posso e mando, num ambiente onde são satisfeitos os mais bizarros e absurdos sonhos e desejos dos filhos queridos, isentos de contenção e bom senso, sem qualquer escrúpulo e respeito pela sociedade onde se inserem.
Reitero, pois, a ideia convicta de que deveríamos ter mais respeito pelos juramentos que fazemos, porque a palavra é uma coisa preciosa. Se a nossa palavra é honrada pelos nossos gestos, ela torna-se mais forte, dignifica a nossa relação com os outros e a nossa relação connosco próprios. Nas instituições da sociedade civil, é também normal jurar-se enquanto se anda em campanha e se apresentam os programas de acção dos candidatos à sua cadeira mais alta, a da Presidência. Chegados ao poder, as primeiras atitudes a emergir são, regra geral, a preocupação pelo dinheiro (perfeitamente natural), contudo e fundamentalmente, virada para aquilo que possibilita, entre o mais, as ansiadas viagens, (é fantástico como ninguém consegue realizar nada sem a ajuda das visitas ao exterior, a alegada troca de experiências)! Esvai-se a dignidade num ápice, e esquece-se naturalmente o juramento, a promessa solene de se apoiar a população votante, de formar os jovens, o futuro da Nação, bandeira fundamental de quase todas as propagandas eleitorais.
Falar das promessas políticas torna-se quase desnecessário. Sabemos todos o que se passa entre nós. Ficam-se sempre por uma parcela ínfima do prometido em juramento, com a agravante de se deixarem visíveis perante a Nação, atropelos à Constituição que juraram defender até à morte. Na linha dos nossos brandos costumes, ficaria tudo numa boa, sem kigila, se, volta e meia, houvesse uma explicaçãozinha, sobre as razões dos incumprimentos, sem evasivas, sem preâmbulos desnecessários. Poderia assim o povo, e para bem da sociedade, ser esclarecido por que motivos ou processos uns têm tudo, e os milhões da maioria nada conseguem ter. Certamente que o povo compreenderia, se a explicação fosse correcta e solene como são os juramentos. Trivializou-se de tal modo o juramento que o povo generoso, com a sua habitual paciência, facilmente entenderia qualquer explicação! Fosse em seminários ou em colóquios, seria bom, recuperava-se o valor do juramento, se explicassem, por exemplo, como se chega ao dinheiro ou aos créditos para fazer gente rica, como foi que chegaram os ricos de hoje, de como se fazem milionários, para a malta aprender como é que se conquista a felicidade.
Há dias, um indivíduo muito mal visto na sociedade, foi nomeado pelo titular da sua pasta, para cargo importante no exterior, e o povo perguntou-se porque razão tinha sido aquele cavalheiro, o escolhido. Ocasião soberana para o alto responsável, que também fez juramento de praticar actos transparentes, explicar a razão da nomeação e daí, talvez se lavasse a imagem do cidadão em causa, perante o público que lhe aponta o dedo, e se acabasse, através desse simples gesto, com a injustiça de o verem condenado sem razão.
Infeliz com este estado das coisas, finalizo, perguntando. Afinal de contas, de que vale um juramento, quando o indivíduo que jura não o consegue cumprir? Pior que tudo, quando ele sabe antecipadamente, que não o vai cumprir?

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia