Opinião

O amor de Estado

Adriano Mixinge

Amamos as pessoas quando fazem parte de nós: elas ajudam-nos a dar valor à mão seca na hora do toque discreto, a sorrir depois do inesperado beijo na nuca, a entender o olhar cúmplice na hora necessária, a desfrutar do tempo que passamos juntos e, sobretudo, a manter a boca limpa de promessas que não somos capazes de cumprir. Com as pessoas que amamos aprendemos a respeitar o amor livre, com elas compreendemos que não há nada de mal em admirar amores libertinos ou em experimentar vícios consentidos, já que todos são expressões da nossa humanidade.

“Faça amor e não à guerra” é o lema inspirador das ideologias pacíficas: não há pureza mais elevada que a do amor. Apesar de em muitos casos ser  conflituoso, as famílias tendem a aceitar e a respeitar as diferentes formas de amor e tipos de orientação afectiva, psicológica e sexual. Desde a origem da humanidade até à data presente, elas existiram sempre: não eram nem aceites, nem respeitadas por todos, já que a moral pública e a moral privada nem sempre se relacionam de uma maneira harmoniosa.
Há notícias de grupos etno-linguísticos e culturais angolanos com maneiras de equacionar e manter o equilíbrio social integrando harmoniosamente as diferentes orientações afectivas e psico-sexuais que existem à margem das normas predominantes. Desde os primórdios da Independência, ouvimos falar de guerrilheiros nacionalistas, de investigadores, de músicos e de escritores e, no geral, de cidadãos angolanos da comunidade LGTBI, - que é o acrónimo das práticas gays, lésbicas, bisexuais e transgénero - ,  mesmo que antes não o designássemos assim.  Mas,  ser considerado com tal ou assumi-lo  publicamente sem problemas, já foi  e, em parte, continua a ser uma causa para a anulação e ou a exclusão social.
Quando o próprio não o assumisse, considerar alguém de homossexual tinha um efeito e impacto social semelhante ao de considerar alguém de feiticeiro ou contra-revolucionário: eram estratagemas que visavam estigmatizar, negar ou anular o outro, uma justificação para se utilizarem os meios que quisessem para bani-los ou menosprezá-los. 
Por força da educação, as formas de amor e de tipos de orientação afectiva e psico-sexual podem, em determina-do momento, não estar no horizonte do possível e do admís-
sivel de alguém e, também, podem estrangular a noção do aceitável e permíssivel de muitos, mas, isso não significa que elas não existam. Nos últimos anos, o movimento LGTBI tem vindo a ganhar força em todo o mundo, resultado, por um lado, do facto de constituirem um segmento de consumidores que o capitalismo tardio vê por bem absorver e estimular e, por outro,  pelo apoio que recebe dos movimentos cívicos e sociais. /> Temos verificado uma evolução legislativa em muitos países: vários  optaram por legalizar os casamentos entre homossexuais, melhorar as regras de atribuição da identidade civil, incluindo, em alguns casos, possibilitar os tratamentos hormonais e de troca de sexo, por incompatibilidade entre a aparência física e assumpção e a aceitação do género. Ou seja: quem se sentir mulher, mas tiver um corpo de homem –  ou vice-versa-, com a ajuda do Estado pode trocar.
 O Estado ama os cidadãos tanto como as suas próprias famílias e decide demonstrá-lo, contribuindo com o esbater da situação dramática de indivíduos e famílias. Com a legalização, em Junho último, da Associação Iris pelo Ministério da Justiça da República de Angola, - um acto que marcará a jurisprudência sobre a matéria-, a nossa sociedade  demonstra o seu interesse em ultrapassar o desequilíbrio existente entre o reconhecimento privado e o reconhecimento público das tendências  afectivas, psico-sexuais e amorosas entre cidadãos. 
Sendo um sentimento e uma prática que pela sua natureza é ilimitada, o amor só obedece às regras que os amantes consensuam e elas são, em primeiro lugar, íntimas e privadas e, só depois, já fora deste âmbito, é que estas regras obedecem às normas do direito público. Com a legalização da Irís, o Estado dá um passo em frente para, com actos, permitir escenificar o amor e, um dia, a regularização das relações entre os seus cidadãos, sem exclusão, como a Constituição da República de Angola prevê.
Não nos esqueçamos que ao contrário do que acontece com a democracia, a pátria e ou com a Nação, todas elas invenções ideológicas, políticas e histórico-culturais, como manifestação dos afectos e independentemente do tipo que for, o amor é, talvez, o que de melhor e mais natural os homens têm, qualquer coisa situada entre o instinto e a razão, a ousadia e o equilíbrio, o indispensável e o inevitável.
É o amor que nos torna mais criativos, é o amor de Estado que nos tornará melhores cidadãos!

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