Opinião

O aniversário da fundação da Liga Nacional Africana

Filipe Zau |

Através da publicação dos seus estatutos no “Boletim Oficial”, a 29 de Julho de 1930, foi legalizada a Liga Nacional Angolana.

Em 1910, antes da instauração da I República em Portugal, já existia em Angola, desde finais de século XIX, uma elite intelectual proveniente de uma camada social urbana, que, através de Augusto Silvério Ferreira, Francisco Castelbranco e Pedro Paixão Franco, laçou a público em 1902 a revista “Luz e Crença” e em 1907 “O Angolense”. Á é­poca, segundo Salvado Trigo, estas publicações propunham-se promover a “evolução material e moral do grande império de Angola”.
A Junta de Defesa dos Direitos de África, uma federação de associações criada em Lisboa em 1912 por um grupo de intelectuais constituído, na sua maior parte, por estudantes angolanos, cabo-verdianos e santomenses, foi, de acordo com Mário de Andrade, uma das primeiras a surgir, muito antes de qualquer outra com estatuto jurídico-legal nas colónias portuguesas em África. “Ser negro ou filho deste” era uma das condições para se ser sócio e­fectivo da Junta de Defesa dos ­Direitos de África, que chegou a ter, entre 1911 e 1913, o periódico “A Voz de África”.  Após a I Guerra Mundial (1914-1918) e da realização, a 19 de Fevereiro de 1919, em Paris, do 1º Congresso Pan-Africano organizado pelo intelectual negro americano W. E. B. Du Bois (o pai do Pan-Africanismo), surgiram também em Lisboa duas outras associações africanas: a Liga Africana, em 1920, que se assumia como uma continuadora da Junta de Defesa dos Direitos de África e o Partido Nacional Africano (PNA), em 1921, que se intitulava representante de uma união dos povos africanos.
Este último propunha uma alteração radical na Constituição Portuguesa, para uma confederação que agrupasse os povos africanos em pé de igualdade com o povo português. Contrariamente à Liga Africana, esta mais elitista, o Partido Nacional Africano assumia-se como representante dos povos das colónias portuguesas em África e incluía as chamadas “populações gentílicas”.
Porém, a Liga Africana era a associação que tinha maior influência em Portugal e nas colónias, mas também nos contactos com as correntes pan-africanas americanas e francesas. Em 13 de Agosto de 1929 surge, também em Lisboa, o Grémio Africano, associação de carácter civil, recreativa, artística e científica constituída por “naturais pertencentes à Raça Africana”.
O Grémio Africano, de acordo com os seus estatutos, aprovados pelo Governo Civil de Lisboa a 28 de Agosto de 1929, tinha como principais objectivos “concorrer para o prestígio social e mental dos africanos, congregar e estreitar os laços de uma união e solidariedade entre os naturais d’África e as raças nacionais, promover o levantamento do nível intelectual e revigoramento físico dos indígenas da África Portuguesa”.
Mário de Andrade refere que nesta associação distinguiu-se Dona Georgina Ribas, notável musicóloga feminista, que exerceu grande influência social e moral junto da intelectualidade africana então residente na capital portuguesa.
Em 1926, após o fim da I República em Portugal, a Liga Nacional Africana, antes de legalizada, foi oficialmente criada, em 17 de Julho de 1930. Herdeira das ideias da antiga Liga Africana, teve como propósito a perspectiva utópica de reunir os africanos do Cairo ao Cabo em acções estritamente culturais, desportivas e recreativas. O seu funcionamento “ficava condicionado” à recomendação expressa pelas autoridades do Estado Novo de que a “aprovação lhes seria retirada quando a citada associação se desviasse dos fins para que era instituída”, o que não veio a ocorrer durante 20 anos.
Nesta fase de coexistência pacífica com o regime colonial, caracterizada como “fase requerimentista” por Carlos Belli Bello,  a Liga Nacional Africana, que não era frequentada por europeus, esteve abrangida por dotações financeiras anuais inscritas no orçamento do Governo-Geral de Angola. Por iniciativa do então ministro das Colónias, Professor Marcello Caetano, foi-lhe atribuída uma sede condigna, em 1942. Apenas em 1948, com a emergência do lema cultural de intervenção política “Vamos Descobrir Angola”, a Liga Nacional Angolana passou a inquietar as autoridades coloniais.
Viriato da Cruz, considerado o demiurgo daquele movimento, enunciava assim os seus objectivos: “queremos reavivar o espírito combatente dos escritores africanos dos fins do século XIX, de José de Fontes Pereira e dos homens que compuseram ‘A Voz de Angola Clamando no Deserto!’ Os poetas devem escrever acerca dos interesses reais dos africanos e da natureza social da vida africana, sem nada concederem à sede do exotismo colonial, ao turismo intelectual e emocional do prurido e curiosidade dos europeus”.
Descendente do Grémio Africano e criada sensivelmente na mesma altura que a Liga Nacional Africana, surge em Luanda a Anangola, que através de um animado departamento cultural publicou a revista “Mensagem”, publicação que marca o início da literatura angolana de intervenção política e está na origem da corrente cultural “Novos Intelectuais de Angola”.
Frequentada por negros, mestiços e brancos, esta associação acabou por assumir posições de compromisso com a administração colonial de forma mais acentuada que a Liga Nacional Africana. Por essa razão, Viriato da Cruz e Mário Alcântara Monteiro acabaram por abandonar a Anangola, em total desacordo com a sua política reformista, e passaram a integrar-se nas actividades culturais e na militância política clandestina na Liga Nacional Africana.

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