Opinião

O benefício da dúvida

João Melo |

A declaração mais importante feita pelo candidato presidencial do MPLA, João Lourenço, no encerramento da pré-campanha do referido partido, ocorrido em Benguela no dia 8 deste mês, foi omitida por todos os meios de comunicação, públicos ou privados, o que diz tudo, no mínimo, sobre a “competência” do jornalismo político angolano.

Com efeito, e depois de ter reafirmado o slogan da campanha do partido no poder - “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal” -, Lourenço afirmou que todos sabemos o que está mal; o que tem faltado, por vezes, é coragem para o corrigir. Ele garantiu que terá essa coragem.
Eis a reprodução parcial das suas palavras: - “Acham que, com todo este apoio que estamos a colher, de Cabinda ao Cunene, desde que nos pusemos na estrada, vai-nos faltar a coragem para corrigir o que está mal?”. Essa deveria ter sido a manchete do dia 9 de Julho. Igualmente, alguns eleitores habituais do MPLA, que têm manifestado, pelo menos por enquanto, a sua hesitação em definir o seu voto nas eleições marcadas para o próximo dia 23 de Agosto, deveriam reflectir sobre essas palavras.
Tenho escutado e lido, da parte desses eleitores, entre os quais amigos meus, duas “teses” curiosas para explicar as suas dúvidas e, talvez, antecipar a sua decisão final, dentro de pouco mais de um mês.
A primeira é a tese do desencanto total e absoluto com o MPLA, sem que esse sentimento, contudo, se tenha convertido em voto oposicionista. De facto, essas vozes também não acreditam na oposição. Por isso, estão inclinados, aparentemente, a abster-se na próxima disputa eleitoral. Alguns pensam mesmo viajar para o exterior na altura das eleições. Vários deles acrescentam que “o MPLA já ganhou, não precisa do meu voto”. Ou seja, não querem que a oposição ganhe, mas também não querem “sujar as mãos”.
A outra “tese” é um pouco mais rebuscada. Certos eleitores do MPLA nas disputas anteriores dizem estar dispostos, agora, a votar na oposição, não para que esta vença, mas para reduzir a diferença entre as forças oposicionistas e o partido no poder. “É uma questão de número”, alegam. “O MPLA precisa de uma oposição mais forte”.
Desconheço a dimensão desses fenómenos. Apenas uma pesquisa pode determinar se se trata de opiniões isoladas ou de verdadeiras tendências. Mas defendo, sem hesitações, que ambas as posições são equivocadas e potencialmente “perigosas” (do ponto de vista, claro, do partido a que pertenço).
Em primeiro lugar, o MPLA ainda não ganhou. As eleições só se ganham depois do apuramento dos votos. O partido no poder precisa, pois, do voto de todos os seus militantes, simpatizantes e eleitores.
Em segundo lugar, a vitória do MPLA e do seu candidato a 23 de Agosto é fundamental para promover as mudanças que a sociedade reclama e que só o partido no poder tem condições de realizar, sem criar o caos. A primeira mudança já foi feita: a indicação de novos candidatos a presidente e vice-presidente da República. Por outro lado, João Lourenço exprimiu, durante a recente pré-campanha eleitoral, uma série de compromissos claros com várias mudanças que é necessário fazer para corrigir o que está mal. Votar nele e no MPLA, no próximo dia 23 de Agosto, não é, portanto, “sujar as mãos”, como pensarão certos “puros” politicamente desnorteados.
Como defendeu o respeitado escritor Pepetela, em entrevista à ÁFRICA21 em Março deste ano, João Lourenço merece o benefício da dúvida. Ele precisa – acrescento eu – de ganhar bem, para levar a cabo as mudanças aguardadas pela população. 
P.S. — O caracter demasiado restrito da primeira conferencia de imprensa do candidato presidencial do MPLA foi um equivoco que, na minha opiniao, nao deve ser repetido.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia