Opinião

O bom vizinho

Luísa Rogério

Félix-Antoine Tshisekedi Tshilombo, empossado a 24 de Janeiro como quinto presidente da República Democrática do Congo, fez a sua primeira deslocação oficial ao exterior. Angola foi o primeiro destino escalado.

A notícia faz manchetes nos dois países. Repercute-se pelo continente africano. Há motivos! Félix Tshisekedi, declarado vencedor das eleições presidenciais pela Comissão Nacional Eleitoral Independente (CENI), com um total de 38,57 dos votos, contrariou muitas previsões. Martin Fayulu Madidi, que reivindicou vitória no pleito realizado a 30 de Dezembro último, teve que se contentar com o estatuto de ex-potencial candidato ao obter a preferência de 34,85% do eleitorado. O Tribunal Constitucional não lhe deu razão. Proclamou  FélixTshisekedi Presidente da República.
Há cerca de um mês poucos analistas previam o actual contexto na RDC. A antevisão da fraude colocava Emmanuel Ramazani Shadary, o delfim de Joseph Kabila, virtualmente no poder. Os seus 23,84% de votos, declarados pela CENI, de algum modo surpreenderam a opinião pública. Um candidato governamental derrotado da mesma maneira que os outros acaba sempre por constituir resultado surpreendente em África. A surpresa aumenta quando o país se chama Congo Democrático, ainda que não faltem teorias conspiratórias, indicando sobretudo um “sugestivo acordo político” entre o anterior e o actual homem forte da RDC, eleito para mandato de cinco anos renovável apenas uma vez.
Aos 55 anos de idade, Félix-Antoine Tshisekedi Tshilombo entra pata a história como o quinto presidente da RDC. É  o primeiro estadista congolês a receber a fasquia do seu antecessor que, marca igualmente a conturbada história recente do país vizinho. Joseph Kabila, que sucedeu ao pai, Laurent Desirée Kabila, assassinado em circunstâncias trágicas, é o primeiro ex-presidente vivo da RDC. Na hora da passagem do testemunho, observadores ao redor do mundo se recordaram das suas palavras proferidas um dia antes das eleições gerais. Afirmou na altura que o “povo congolês daria uma lição de democracia ao mundo”.
É prematuro confirmar se os congoleses dão lições de democracia ao mundo. Mas nenhum dos cenários dantescos de crise pós-eleitoral se concretizou. Os acérrimos apoiantes de Martin Fayulu que diziam estar dispostos a tudo, inclusive a morrer lutando, terão compreendido que o homem do momento representará um mal menor no processo de pacificação do país que não regista qualquer experiência de transição pacífica desde que alcançou a independência da Bélgica em 1960. Segundo maior país de África, com uma população estimada em 85 milhões de habitantes, dos quais 47 milhões habilitados a votar no último pleito, o Congo reconfirmou a única certeza que se tem em relação ao país: absolutamente nada é previsível naquele país.
Ainda bem que assim é, pelo menos no que toca aos vaticínios de banho de sangue. Felizmente nem sempre o Congo é um Congo, conforme se comenta em tom pejorativo. Os piores receios não se concretizaram. Félix Tshisekedi veio a Angola, país com o qual a RDC partilha uma fronteira de aproximadamente dois mil e seiscentos quilómetros, na condição de Chefe de Estado. Tudo indica que estão estabelecidas as premissas para que as relações entre os dois países ascendam novamente a altos patamares. A sensível questão da segurança fronteiriça, agudizada com o repatriamento de milhares de cidadãos congoleses, alguns supostamente deportados pelas autoridades angolanas em condições lesivas aos preceitos e tratados ao abrigo do direito do internacional, estiveram em análise. As relações políticas e económicas tinham necessariamente que estar na ribalta porque a RDC é ainda aquele gigante adormecido em busca da normalidade.
Líder da União para a Democracia e Progresso Social (UDPS), o mais antigo partido da oposição na RDC, Félix Tshisekedi é filho de Étienne Tsisekedi, falecido há exactos dois anos em Bruxelas, Bélgica. O veterano político foi três vezes primeiro-ministro do país que se chamava Zaire, ainda durante a vigência de Mobutu Sese Seko. O pai do Presidente da RDC morreu sem atingir o posto agora conquistado pelo filho. A trajectória deste leva a crer que fez todos os deveres de casa. Em algum momento do seu percurso decidiu mudar o tom do discurso. Procurou o meio-termo. Apostou na reconciliação e conquistou milhões de apoiantes internos. Aconselhar-se com vizinhos e capitalizar apoios em África são pontos fortes na agenda internacional de Félix Tshisekedi que tem pela frente um mandato, no mínimo, desafiador. Governar um país cuja oposição tem maioria absoluta no parlamento representa tarefa difícil para qualquer político.

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