Opinião

O comandante "Framboesia" e o castigo para os adeptos

Filomeno Manaças |*

Aproximava-se mais um daqueles jogos de futebol de alto risco entre as equipas do Muatafari United Club e do La Mancha Fashion Sport.

Sempre que assim acontecesse era uma dor de cabeça para o comandante “Framboesia” e seus homens. Montar o sistema de segurança e de protecção dos dirigentes, dos atletas, dos adeptos de ambas as equipas e da equipa de arbitragem exigia tudo em dobro ou a triplicar.
Na última partida entre as duas equipas, em que o Muatafari United Club, 20 vezes campeão nacional, foi desfeiteado por escassa uma bola a zero pelo La Mancha Fashion Sport, apenas cinco vezes campeão, os adeptos da primeira, sentindo-se humilhados e “roubados” pelo árbitro, partiram para a violência e o saldo foi de 25 feridos em ambos os lados, com vários detidos.
Os confrontos mais violentos entre as claques tinham ocorrido uma década atrás, quando o La Mancha Fashion Sport se sagrou campeão pela quinta vez. A batalha campal levou à prisão de 108 adeptos de ambas as equipas, que, na refrega, vandalizaram vários estabelecimentos comerciais do centro comercial de Muatafari.
Desta vez “Framboesia” estava disposto a dar, a todos os que se envolvessem em actos de vandalismo, um correctivo que ficasse na história. Avançou para um pacto com os dirigentes dos dois clubes. Não foi difícil conseguir o apoio das direcções. Ficou tudo combinado ao pormenor.
Chegou o dia da partida e o estádio estava cheio, com vinte mil almas a vibrarem. A entrada para o recinto decorreu dentro da maior normalidade. O árbitro apitou para o início do jogo e das bancadas choveram assobios e palavras de encorajamento aos atletas do Muatafari e do La Mancha, como eram abreviadamente chamadas as equipas. Os primeiros vinte minutos foram de estudo mútuo, mas jogados com intensidade e alguma virilidade, obrigando o árbitro a apelar várias vezes à calma dos intervenientes e evitando ao máximo mostrar qualquer cartão amarelo que condicionasse o desempenho dos atletas. O homem do apito estava apostado em garantir que o jogo fosse um bom espectáculo, um hino ao futebol, e, no final, prevalecesse a opinião consensual de que a arbitragem não influenciara no resultado.
A partir dos vinte minutos, as equipas aumentaram o ritmo de jogo, começaram a surgir os dribles estonteantes e os passes de ruptura, quer de uma quer de outra equipa, que deixavam os adeptos em autêntico delírio e a gritar por “golo” quando vissem o atacante a esgueirar-se para a baliza contrária. E foi nessa toada que surgiu o 1-0, com o La Mancha a adiantar-se no marcador aos 40 minutos. O Muatafari tentou, ainda antes do intervalo, chegar ao empate. As equipas foram para o descanso com os adeptos nas bancadas ao rubro. Uns a esfregarem as mãos de contente e outros a fazerem o mesmo mas a torcerem para que, no segundo tempo, a sua equipa do coração conseguisse igualar a partida e suplantar o adversário.
No reatamento, o Muatafari empatou aos 55 minutos, numa jogada de envolvimento. Aos 70, num livre directo, já estava a ganhar por 2-1. Mas o La Mancha, ao minuto 81, fez o 2-2 e, aos 89, passou à frente do marcador com um golo de belo efeito. Estava feito o 3-2 e, também, o resultado final. Aos 93 minutos o árbitro deu por finda a partida.
Os jogadores do Muatafari ficaram inconformados, ao contrário dos exultantes do La Mancha e eis que os adeptos saíram do recinto desportivo com os punhos erguidos e os dedos em riste. Os efectivos da Polícia seguraram a “barra” até um perímetro de 500 metros do estádio. Foi já fora desse raio de acção que vários grupos, de forma isolada, se envolveram em pancadaria.
Mas, em 15-20 minutos as forças que se encontravam de prevenção tinham a situação controlada e os 56 adeptos radicais das duas equipas - dos quais 31 do Muatafari e 25 do La Mancha -, estavam a prestar contas em três esquadras policiais.
O comandante “Framboesia” ligou para os presidentes do Muatafari e do La Mancha e comunicou que tinha conseguido o “número mágico”, o suficiente para formar uma equipa de futebol de adeptos radicais de cada clube.
Os detidos foram, durante um mês, treinados e equipados para defrontar os emblemas a que, respectivamente, se opunham, num jogo de apenas 45 minutos. Os adeptos do Muatafari jogaram contra a equipa principal do La Mancha e perderam por 11-2. Os do La Mancha jogaram contra a do Muatafari e também perderam, por 10-1. No final de cada jogo era vê-los, todos, com a língua de fora e as mãos estendidas para as garrafas de água… Foram eles os precursores da mudança de mentalidade de outros adeptos fanáticos. E fez-se história!

* Director Nacional de Publicidade. A sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social

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