Opinião

O combate à corrupção não pode ser abrandado

Luciano Rocha

A entrevista do embaixador angolano na Alemanha ao Jornal de Angola, publicada na segunda-feira, mesmo sem grandes revelações, motivaram, como é normal, nesta altura de maior liberdade de divulgação de ideias, reacções diversas.

Uma parte substancial do angolano comum rejubilou com as declarações de Alberto Correia Neto, por serem as que queria  ouvir e emite, cada vez com maior frequência - e tom de voz - em rodada de amigos. Não raro levado mais pela vontade de ver atingidas figuras até há pouco intocáveis do que pela racionalidade. 

O diplomata foi quase sempre certeiro nos tiros disparados em várias direcções. A esta hora ainda há, de certeza, quem esteja a espumar de raiva. Alguns, até, como soe dizer-se, a “cortar-lhe na casaca”. A prometer vingança e ajuste de contas. Porque o diplomata, que é general na reserva, parece ter optado pelo papel de “franco atirador”. Com cartucheira sem fundo. Mas, quando entendeu ser mais apropriado, não hesitou em usar a arte de espadachim que também mostrou dominar. Porventura, a memorizar tempos de meninice, quando lia, nos livros aos quadradinhos, as venturas de Zorro e dos Três Mosqueteiros.

Entre os vários alvos atingidos pela mira do general na reserva esteve a deputada Tchizé dos Santos. Que não se pode queixar. Foi ela a “procurar sarna para se coçar”.  Pôs-se a jeito. Ao preterir o recato das organizações do MPLA - de cujo Comité Central ambos fazem parte - a favor da praça pública pela via das redes sociais. Por isso, arrisco escrever, fazendo eco da opinião de tantos angolanos, que o tiro de Alberto Correia Neto contra a camarada de partido pode ter tido efeito de ricochete e satisfeito os desejos da deputada. Que no tempo da anterior governação era apenas uma produtora de conteúdos televisivos de um canal que lhe foi ofertado numa das bandejas do nepotismo. Apenas isso. E tinha a fama, que mantém, de “jovem caprichosa”.

Os tiros disparados contra Tchizé dos Santos podem mesmo ter-lhe aumentado o ego. E o ânimo para continuar a campanha de se querer apresentar como “vítima perseguida” por ser filha do anterior Presidente da República.

De uma coisa jamais Alberto Correia Neto pode ser acusado: de na entrevista ao Jornal de Angola não especificar os alvos a atingir. Trata-os pelos nomes. Chamem-se Tchizé dos Santos, Forças Armadas, Embaixadas.

No caso das Forças Armadas, mencionou, entre outros, o exemplo de “oficiais das Finanças a registarem permanentemente pessoas que já morreram, ou são desertoras, a ‘receberem’ salários mensais”. Naturalmente, faz a mesma pergunta do leitor: “Este dinheiro vai para quem?” A resposta foi óbvia: “Para os que engendram o esquema”. De imediato, procura avivar a esperança no  êxito do combate à corrupção: “agora, já existem inspecções permanentes e regulares”.  

Quanto às representações diplomáticas, também referiu casos que em nada enobrecem quem trabalha em algumas delas. Mas, neste caso particular, trocou de armas e usou a esgrima, de manejo mais delicado. Que não o impediu de estocadas firmes. Como quando disse haver “muitos casos” de embaixadores, cônsules, adidos financeiros, entre outros, “e não são poucos”, cujo dinheiro que recebem dos duodécimos investem (...) em coisas pessoais”, que “se viessem a público...”.

A entrevista do embaixador Alberto Correia Neto teve o condão de confirmar algumas das anomalias deste país. Que lhe têm emperrado o desenvolvimento natural em benefício de uma minoria egoísta. Falha dos mais elementares princípios de decência. Mas, igualmente, confirmou a importância da maioria de nós pormos de lado diferenças ideológicas e interesses particulares. Para juntos rumarmos em direcção ao amanhã prometido desde há muito. Com direitos e obrigações iguais. Sem nepotismos, corrupção, impunidade.    

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