Opinião

O copo meio cheio e meio vazio

Manuel Rui

É um problema quase recorrente para a política, a economia e a sociedade em geral. A questão é de saber se o Estado é que deve gerir a economia ou se esta deve ter como gestores os privados.

Com simplicidade, liberalismo era o estado apenas dirigir politicamente e os empresários gerirem a economia. Depois surgiu o neoliberalismo como doutrina clássica capaz de responder às falhas que deram origem à crise mundial de 1929. É a economia de mercado, também a “terceira via” para responder a outra economia de colectivização que ocorria nos países socialistas. O neoliberalismo mais recente é a financeirização da economia que culminou com a crise de 2008. E onde queremos chegar é às privatizações aqui em Angola.
Parece que as experiências do estado como gestor de empresas tem falhado e mesmo os países socialistas sempre se debateram com esse mistério que é o mercado.
Tivemos uma primeira experiência de parciais privatizações após a queda do olhar silencioso de Lénine que foi um escândalo com directores de empresas estatais a passarem a proprietários, famílias de membros da numenclatura e o início de um capitalismo feroz na intensidade das águas de colónia que acabou em erros semânticos trocando, para diamantes, a palavra lapidar para delapidar e acabando na situação actual em que o estado necessita de força para dirigir sendo que o poder económico está na mão de uma minoria mi e bilionária.
Houve pessoas que se usaram do Estado como se de coisa sua se tratasse. Quando saíram ergueram grandes empreendimentos, lavaram dinheiro. E houve um presidente que distribuiu a gestão de diamantes, petróleo, fundo soberano e parte de comunicação social pelos seus filhos. Pessoas que não tinham nada faz uns anos, têm agora enormes superfícies cujo regime fiscal desconheço. Parece que perguntaram quem quer? E foi só responder eu Kero.
Vem esta minha crónica a propósito da notícia da privatização da empresa de pontes. Um escandaloso buraco que eu conheci num julgamento no tribunal de Benguela. Haverá gente a ler esta crónica que esteve nas audiências. O problema que se coloca sempre é, em última instância, o homem. Como serão feitas as privatizações? Primeiro a regra dos concursos foi sempre enviesada de forma a que os mesmos fossem ganhos por determinadas pessoas. Seria mais honesto não haver concursos ou pré-seleccionar os concorrentes. Há aqui uma questão de fundo. As empresas que não visam lucros acabam cobrando ao cidadão portagens, taxas sobre o lixo, ou subida do preço da água e da luz (bens de que o cidadão só deveria pagar um pouco acima do custo da produção de energia, tratamento e transporte da água). Também, seria aconselhável empresas mistas com uma parte do estado e, eventualmente, com as mãos no conselho fiscal. É interessante verificar que tem havido lá fora alguns exemplos do Estado entrar em empresas até então totalmente privadas.
Enquanto se pretende corrigir, enquanto se “convida” os que enriqueceram pelo seu “talento” a deslavarem o dinheiro para aplicação aqui no país, se forem abertos concursos para privatizações serão os do verso da página que agora virada para o reverso, que irão aparecer e ficar com tudo, eles que já eram donos disto tudo agora entra-lhe pela porta mais do que aquilo que generosa e patrioticamente fez regressar. É óbvio que só os ricos é que podem entrar na luta da privatização. Quanto a mim, só aceito privatização com legislação exclusiva para ex-políticos e políticos, sempre com investimento, dinheiro fresco.
É certo que gente que vem dos variados pensamentos de esquerda, hoje rende-se ao mercado…mesmo a China com o seu capitalismo de estado. Quer dizer, mesmo nos parlamentos como o de Portugal, onde governa uma maioria de esquerda, a ideia prática não é outra que não seja lutar por um capitalismo menos desumano e desigual.
Lembro-me do controlo de os governantes entregarem um envelope fechado com declaração de bens. E esses envelopes já foram abertos?
Parece que a nossa ideia de abandonarmos as esquizofrenias de Moscovo era no sentido de abraçarmos um socialismo democrático, com liberdade do cidadão operar na vida económica, igualdade, política fiscal com agravo para os mais ricos. Também sempre pensei porque assim aprendi que, aberta a campanha eleitoral, não se pode legislar mas apenas os agentes do estado se devem remeter a actos de gestão corrente… não sei se alguém legislou até ao fim num gesto de apreço pelos interesses do povo.
Estou mesmo a ver as bocas já abertas para as privatizações! Se saímos das bocas dos jacarés para as mesmas mascaradas de tubarão. Posso estar a dizer uma série de erros, até porque a empresa de pontes não serve de exemplo e não imagino quem nela estará interessado. Agora que acredito em mudanças sempre acreditei como digo num verso nada permanece que não seja para a necessária mudança/que o diga o mar…
Estou nessa do copo meio cheio ou meio vazio e como as peixeiras de peixe que apregoavam alto, aqui na minha rua para eu ouvir e comprar-lhes peixe, deixaram de cantar, interrogo-me porquê?… Deve ser deste cacimbo frio.

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