Opinião

O fenómeno Donald Trump a pós-verdade e o senso comum

Cláudio Tomás*

Em muitas  análises feitas às últimas eleições norte-americanas, é atribuída à vitória eleitoral de Donald Trump o fenómeno designado por "backlash". Deste termo compreende-se o exercício do direito de voto, realizado por um vasto número de eleitores, motivado exclusivamente por sentimentos de vingança.

Sendo assim, os resultados eleitorais são tomados como o espectro da expressão dos ressentimentos de pessoas que se mostram ultrajadas pelas políticas ou por políticos de governos anteriores. O que vem parecendo cada vez mais plausível é o facto de que quanto mais é esvaziada a relevância do debate ideológico entre as forças políticas, maior é o espectro do campo dos votos com exclusiva orientação sentimental.
Tomada como válida a afirmação de que alguns sectores sociais tendem a votar mais por razões sentimentais do que por motivações políticas, levam-nos a considerar então que as explicações do "backlash" se inscrevem num campo de infinitas realidades, e por isso, de difícil determinação. Contudo, no caso dos Estados Unidos de América (EUA), o "backlash"  que se assume ter funcionado como factor determinante nos resultados eleitorais, foi em grande medida dirigido contra Hillary Clinton e, de forma geral, a tudo o que ela representava como prática dominante da política das últimas duas décadas naquele país.
Ou seja, Hillary Clinton representava uma realidade que deixou de ser a da maioria de norte-americanos. Uma realidade que para muitos sectores sociais da população passou a ser vivida através da experiências de pobreza, do desemprego ou empregos precários, do miserabilismo e do abandono. Para muito, Hillary Clinton, representa o inaugurar de um tempo que testemunhou o desligamento da política com a vida real destas pessoas.  
E é precisamente aqui que entra o "backlash", não já como explicação da orientação sentimental do voto mas como expressão máxima do espectro das infinitas realidades em que se transformou o campo político. Ou seja, de realidades sem representação política. Precisamente aquela em que habitam os esquecidos e os excluídos. Os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann (1999), chamariam a estes "habitats" de “áreas delimitadas de significação”; ou seja, as das vivências sociais que se tornam específicas pelas realidades específicas em se reproduzem. Isto é, as de gente que vive em extremo isolamento, viradas para si mesmas e cada vez mais incapazes de produzirem e partilharem um sentido de realidade comum com os seus concidadãos.
O debate que acontece depois da eleição improvável de Donald Trump como presidente dos EUA, vem afirmando que aquele país vive um período em que a relação das pessoas com a eventualidade de uma realidade comum a todos é cada vez mais precária.
Um dos pólos deste debate afirma que esta situação deve-se ao facto de as sociedades estarem cada vez mais enfraquecida para constituírem um sentido comum de realidade, sendo que, diante de um mundo cada vez mais complexo, se tornaram demasiadas preguiçosas e cobardes para se aventurarem no debate, na discussão e na reflexão publica sobre o interesses comuns de homens e mulheres, sociedade e país..., espécie humana.
Por sua vez, o outro pólo refere que, um pouco por todo lado e em vários contextos do mundo de hoje, operou-se um sistema que vem excluindo cada vez mais as pessoas da participação activa na constituição e partilha de uma esfera comum de convivência social. E a experiência de miséria num mundo prolífero em referenciais da abundância, a percepção do abandono, o sentimento de ultraje em relação às políticas e aos políticos são só sinais mais reveladores desta constatação. Além disto, é cada vez maior o número de pessoas que vem deixando de poder contribuir civil e civicamente na construção de realidade mundanas e comummente partilhadas. Contudo, e por outro lado, são cada vez menos, os que participam ditando de forma autoritária e exclusiva as formulações éticas e morais na construção dos destinos humanos.
A designada era da pós-verdade, é precisamente a confluência destes dois mundos abissais, dos integrados exclusivos e dos excluídos niilistas. Porque, se de um lado, ela apresenta-se como regime daqueles poucos integrados que predizem e definem o rumo dos acontecimento sem que mais ninguém participe neles porque de premeio, já destruíram toda a capacidade social de lhes interpor de forma crítica; de um outro lado, ela expressa-se no extremo isolamento de vários sectores sociais que só conseguem experienciar o mundo através do ressentimento, do desprezo, do deslumbramento espectral ou da violência niilista.
Estes dois extremos abissais não colocam apenas o senso comum (que é a base para a estruturação de regimes de verdade) em questão, pois, é já a própria sociedade que eles desprezam e combatem. 
Sem um sentido comum de realidade não há força política que se possa sustentar de forma legítima. E esta exige manutenção que advém apenas da experiência de vida activa dos homens e mulheres na esfera pública, e de uma vigilância em aberta e exaustiva crítica e reflexão sobre a constituição quotidiana desse património colectivo que é o senso comum.   

* Sociólogo

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