Opinião

O fim do “politicamente correcto” no exercício do poder

Faustino Henrique

“Os políticos estão mais preocupados em gerir a sua própria imagem do que  os assuntos da Polis”, escreveu o romancista checo, Milan Kundera, no seu romance “A Imortalidade”, uma asserção que bem se enquadra hoje no exercício do “politicamente correcto”.

 Ao longo de vários anos, numerosos actores políticos foram fiéis ao  expediente mencionado que, na verdade, não se exauriu de todo na medida em que grande parte do “modus faciendi” continua a obedecer ao “politicamente correcto”. O exercício do poder passou a estar ligado, até certo ponto, ao sacro e divino, realidade que passou a ser mitigada a partir dos anos 90, com o triunfo da democracia liberal, que estendeu a todos a igualdade de oportunidades na política e ajudou a “dessacralizar” o exercício do poder político.
No entanto, assiste-se hoje a oscilação entre extremos que parecem conviver pacificamente, até prova  em contrário, nomeadamente o exercício do poder limitado a favor das liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos, por um lado, e uma nova realidade que pretende fazer do “politicamente correcto” uma espécie de prática em desuso, por outro.
Hoje, a ideia de que nem tudo vale na política começa a ser desafiada, pelo menos em termos relativos, pelas figuras políticas que tendem a desafiar o legado do “politicamente correcto”, não perdendo tempo para falar publicamente até o que não deviam e não faltam exemplos. Desde aos exemplos mais “soft” de figuras que contribuíram até determinada maneira e, segundo alguns, até certo ponto positivamente, para “dessacralizar” e “humanizar” mais o cargo de Presidente da República, como Marcelo Rebelo de Sousa, aos mais “hard”, como o Presidente das Filipinas. 
Contrariamente às controvérsias de líderes que, no passado, colidiam com o “politicamente correcto”  fruto do contexto autoritário em que exerciam o poder, grande parte do que sucede hoje ocorre com entidades eleitas democraticamente e que não se indignam de quebrar o protocolo, de falar para o país como se estivessem numa roda de amigos ou pior do isso. E, voltando ao  exemplo, vale lembrar as palavras do Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, dirigindo-se a um grupo de ex-rebeldes em Malacañang, em Fevereiro de 2018, quando disse que tinha “ordenado que os soldados não matassem mulheres rebeldes, mas que as alvejassem nos seus órgãos genitais para que as mesmas se tornassem “inúteis”.
A chegada imprevisível na Casa Branca de Donald Trump, um “empresário emprestado pelo Partido Republicano” para se transformar  em político, cuja filosofia de actuação não tem precedentes na História do país, representa o apogeu. E tudo começa na incontinência verbal de Donald Trump que colide completamente com o “politicamente correcto”,  facto que, paradoxalmente chega igualmente a reunir numerosos apoiantes que se socorrem da ideia de que assim pelo menos se sabe claramente que o político fala por si e não pelo que o recomendam. Mas dizer que “Barack Obama é o fundador do Estado Islâmico” e que Hillary Clinton “é co-fundadora”, além de completamente risível, apenas acaba por expor mais o próprio Donald Trump.
Mas parece que até o populismo está a ser superado por outra forma de extremismo na medida em que falar o que se pensa e como se pensa, ainda que com muita controvérsia é o que, para usar uma linguagem tipicamente angolana, “está a bater” na política. E muito recentemente, Jair Bolsonaro, o candidato da extrema-direita no Brasil,  não estaria a estremecer em termos eleitorais se não optasse por um discurso violento que, embora afugente muitos, ironicamente atrai igualmente a muitos.
Jair Bolsonaro, político com um histórico de declarações polémicas sobre mulheres, homossexuais, negros, ditadura militar, tortura e violência política, está curiosa e paradoxalmente a encaminhar-se para tornar-se no sétimo Presidente da República Federativa do Brasil desde o fim da ditadura militar e regresso da democracia.
É verdade que uma coisa é a forma como um determinado político e candidato às eleições se apresenta durante a campanha, os discursos que profere e as ideias que defende, outra, completamente diferente, é o conteúdo da sua actuação uma vez no poder. De outra maneira, há cerca de dez anos, na Zâmbia o falecido líder oposicionista, Michael Sata, que tinha prometido expulsar todos os indianos do país se fosse eleito, teria cumprido com o que tinha prometido e nada se viu quando eleito.
Caso venha ser eleito Presidente do Brasil, como indica grande parte das sondagens, com as suas devidas margens de erro, Jair Bolsonaro  vai  em muitos aspectos romper com o “politicamente correcto” a favor de um pragmatismo à boa maneira de Rodrigo Duterte, Presidente das Filipinas ou Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, que peca por excesso.
Essa nova geração de políticos, menos em termos etários, representa o que para muitos constitui hoje provavelmente o fim do “politicamente correcto” ou eventualmente o princípio da banalização do exercício do poder, na patética intenção dos meios justificarem os fins, como parece ter sucedido no almoço entre Donald Trump e o rapper Kanie West ou nas justificações esfarrapadas sobre o assassinato do jornalista saudita. Enfim, não estamos apenas a testemunhar o fim do “politicamente correcto”, uma espécie de barreira ética na política, mas igualmente o reforço da ideia do vale tudo em política.

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