Opinião

...O lápis e a borracha

Manuel Rui |

Chamava-se Viola. Era um ser estranho em Nova-Lisboa, hoje Huambo. Sempre alcoolizado, mal vestido, despenteado e os poucos dentes que exibia completamente tisnados pela nicotina do tabaco que ele fumava de enrolar mortalha.

Era o único mestiço nascido em Portugal e viajado para Angola, de sotaque lisboeta com erres, cantarolando marchas dos tempos dos espectáculos portugueses de revista de que ele recordava o nome de Estêvão Amarante.
Viola era admirado por ser guarda-livros. Eu estava pelos meus onze anos de idade e não entendia aquela designação de guarda-livros. Ele trabalhava para um compadre de meu pai, chamado Gavino, comerciante do mato, dos poucos mestiços relativamente endinheirado por herança de seu pai tuga, vinha de camião carregado de milho para trocar por mercadoria na rua do comércio para no regresso levar e vender na grande loja no Gove, um casarão que ficou debaixo da água da actual barragem. O filho mais velho havia baleado um jacaré gigante, velho e vagaroso que só comia pernas das mulheres que lavavam na beira-rio. Quando o jacaré foi abatido, à noite, com farolim no barco, houve festa e queima. Hoje, de vingança, os jacarés, lá de baixo da água, passeiam-se pelas prateleiras e quartos da casa (isto acontece no meu romance “A Casa do Rio”).
Voltando ao Viola, ele trabalhava com um lápis e uma borracha. Fazia a contabilidade do Gavino e outros. Quando vinham à cidade, ficavam perto da nossa casa, numa outra semiabandonada, só com colchões, mesa e cadeiras. Nas férias, eu ia para lá logo de manhã. Era um deslumbramento o que Viola me explicava. Matabichavam vinho tinto com açúcar e pedaços de pão dentro das canecas de esmalte. Deram-me a provar e fiquei meio embriagado. O Viola explicava que aquilo eram “sopas de cavalo cansado”. E era mestre em contas, tinha feito curso de guarda-livros em Lisboa. Guarda-livros porque ele registava as contas em conjuntos de papéis, o livro-diário onde registava o dia-a-dia, o caixa onde registava as disponibilidades para realizar pagamentos e o principal, o razão que ele explicava ser o principal, uma espécie de índice. Ainda me falava em balanços e dizia-me que aquilo era contabilidade e existia desde o homem primitivo quando contava os rebanhos para avaliar sua riqueza.
O Gavino faliu porque o filho que matara o jacaré, começou a substituir o pai, fazendo viagens de negócios para Nova-Lisboa e delapidando o combú numa recente boate de prostitutas brancas chegadas de Portugal por investimento de um taxista tuga. O Viola suicidou-se. E ficou-me na memória o trabalho que ele fazia com um lápis e uma borracha. Aí, meu pai que me imaginava guarda-livros pela minha tanta admiração pelo Viola, ficou desolado quando lhe disse que já não gostava de números. Isto depois de ouvir uma conversa dele com um português, falando daquilo que corria pela cidade. Que o guarda-livros da agência do Banco de Angola, esteve para se suicidar porque a contabilidade dava dois angolares a mais e isso nunca poderia acontecer, antes dois a menos. E fiquei, intrigado, a pensar no razão.
Mais tarde, na Faculdade de Direito em Coimbra, apanhei um conjunto de cadeiras que me contrariaram, economia política, moeda e finanças. Aqui, com economistas, aprendi muito quando trabalhávamos estudos de viabilidade. E comecei a fazer um balanço e um razão desde o lápis e a borracha, a máquina de escrever, a máquina de calcular, todo este inventário com um parêntesis, no grande centro comercial Gum em Moscovo, ali pela Praça Vermelha, um mais velho que me atendeu fazia contas com um ábaco, moldura rectangular, com arames nos quais correm pequenas bolas, e antigamente usado para iniciar alguém na aritmética ou álgebra elementar. Foi um fascínio! E depois da máquina de calcular, a electrónica, a cibernética, os computadores, a sua crescente divulgação, os telefones celulares que fazem milhentas de coisas e a robotização.
Estive atento à Web Summit realizada em Lisboa. Esta conferência, no fundo, foi uma exposição de novas investigações, plataforma de negócios e poderes e ainda abordagens sobre o salto da tecnologia para aquilo a que se define como inteligência artificial. Não há dúvida que hoje um telemóvel é de acesso vulgar (as quitandeiras têm miúdos que avisam por celular que estão a vir os fiscais!). Onde se toca na ferida: a tecnologia deve estar ao serviço do homem e da humanidade quando é certo que embora servindo, por exemplo, a medicina, também é soberbamente utilizada em armamento.
O homem quer pensamento artificial que se aproxime do pensamento humano. Dois robôs de top, conversaram muito um com o outro. Depois, não foi possível ter acesso à conversa porque eles haviam inventado outra linguagem só para eles. E se o homem consegue chegar ao pensamento artificial superior ao pensamento humano? O que pode acontecer à humanidade? Sem dúvida que esse pensamento vai parar às mãos dos mais ricos e mais poderosos. E o resto? O resto é a minha nostalgia de saudade da minha sacola da primeira classe, costurada por minha mãe, com aquele cheiro do papel, lápis e borracha. Como o razão, o lápis e a borracha do senhor Viola...

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