Opinião

O leitor dos sonhos de uma galinha

Osvaldo Gonçalves

A história deste texto - chamemos-lhe crónica ou lá o que quisermos - é, no mínimo, curiosa: por causa da chuvada que choveu há dias, ficámos sem parabólica para ver as makas que mancham o futebol nos últimos tempos e sem Internet para tirar a prova dos nove ao que vemos e ouvimos na televisão, pois temos ao menos óculos para ver ao perto e assim podemos ler quantas vezes quisermos a mesma notícia, sem receio de tropeçar num mal-entendido provocado por algum locutor ou repórter que resolva pôr-se a assobiar com um sotaque mais refinado e, assim, presentear-nos com um "disse-me-disse" atribuído, em última instância, aos nossos ouvidos, mais acostumados a vogais abertas e a esses (S) suprimidos no final das palavras, quando não transferidos para o início delas, até porque, se antes nos acusavam de falar alto demais, agora reclamamos porque ninguém parece ouvir-nos e assim ficamos na dúvida se antes éramos surdos ou se os demais agora entendem fazer-se passar por isso.

(Poderíamos até abrir um parêntesis para contar a estória de um tal Figueiras, tratado respeitosamente por “Felgueiras”, por um modesto vizinho a quem se fazia esquecido de uma dívida antiga e que, diante da cobrança do pobre homem, feita em baixo tom, para não chamar a atenção de terceiros, alegou não estar a ouvir, mas, o credor, irritado, lhe falou em tom de bem se ouvir, entendeu dar uma de vilas Diogo, dizendo que, dessa forma, o outro lhe “estrampalhava as oiças”, bem entendido, mau pagador, teimava em continuar sem pagar o que devia, artimanhando mais uma das suas sempre escudada na falsa moral dos caloteiros de papel passado).
Sem forma de enviarmos outro texto, vimo-nos tomados por aguda letargia, síndrome que ousamos vislumbrar naqueles a quem acusamos de ser gente pouco séria, mais preocupada com o estar que com o ser, tal a parcimónia que apresentam nas tarefas de aprender. Mas, como não se obriga quem não gosta ou se recusa a comer, deixámos que esse “deixa-andar” nos consumisse o dia, sendo acordados apenas de madrugada, com os lençóis ensopados e a testa molhada, para, sem mais nem porquê, nos sentarmos na sala a pensar na morte da bezerra, talvez tomados pela releitura de “O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo”, um romance de Haruki Murakami, que nos foi em tempos oferecido por uma colega de trabalho. Tal o impacto que teve em nós a referência do escritor ao “Leitor de Sonhos”, que, de repente, não como num déjà vu, mas numa situação bem mais complicada, procurámos no cumputador imagens de galinhas, a tentar perceber como pensaria a Mafalda, nossa galinha de estimação de que um dia fantasiamos a “fala” quando respondia aos nossos chamados.
Tínhamos sonhado com a Mafalda, mas não fora um sonho simples, com ela a responder a algum chamado, ou chamando a nossa atenção para o facto de os pratinhos de água e de farelo estarem vazios. Sonháramos que estávamos sentados a uma mesa com tampo de metal, a rasgar a escuridão com o feixe de luz da lanterna do telemóvel e diante de nós estava um crânio da Mafalda connosco a tentarmos ler-lhe os sonhos, um único que fosse, para nos ajudar a entender o pensamento das galinhas, esse que, por algum preconceito herdado da biologia, achamos ser obviamente menor que o do ser humano.
E agora, acordados e sentados na sala, éramos assaltados por uma espécie de déjà vu, não um qualquer, mas um déjà vu de galinha, como se fóssemos alertados para o facto de os partinhos de água e de farelo estarem vazios.  Sobre a Mafalda, que morreu de morte morrida, dissemos então que era muito boa pessoa, nunca se deixando levar pela arrogância com que alguns tentam camuflar a ignorância.

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