Opinião

O Natal de cada dia

José Luís Mendonça |

O Natal devia ser como o pão. Nosso e de cada dia. É assim que eu celebro o Natal. De 1 de Janeiro a 31 de Dezembro.

Quando chega o dia 25 de Dezembro, já venho celebrado, animado e alegre de viver cada dia como uma autêntica festa da Vida. Entro no Natal e no chamado Ano Novo livre da loucura das compras, das boas-festas, dos presentes e do quanto mais as pessoas reinventam para serem felizes um, dois, três ou míseros cinco dias. Para mim, todos os dias são dias de Ano Novo!
É por essa mesma razão que também não festejo aniversário. Natal e aniversário fazem já parte do meu hábito de celebrar cada dia da minha vida como se fosse o último. E prenda para mim é um sorriso, um carinho, um abraço, uma palavra de estima e apreço, um bom-dia. Sim, um simples bom-dia é para mim um dos maiores presentes que gosto de receber.
É um absurdo um chefe dar bafos a um funcionário adulto e depois ofertar-lhe um cartão de boas festas no Natal.
É um acto de esquizofrenia um pai que passa o ano quase todo fora de casa aos fins-de-semana, sentar-se à mesa do Natal para celebrar com a “família”.
É muito triste a pessoa viver um ano inteiro, uma vida inteira carrancuda, às turras com os familiares, colegas e amigos, somente à espera do Natal ou do seu aniversário para abrir a alma a um raio de alegria, de contentamento, ou dar um candando apenas uma vez no réveillon.
Cada dia é dia de festa. Compre um bolo grande, quando tiver dinheiro, e quando lhe dar na gana de comê-lo com os que lhe são próximos. Não espere um único dia do ano para se refastelar com bolo e ser feliz. Mas tenha cuidado com o açúcar!
O Natal é todos os dias! A manifestação de paz e de afecto aos mais pequeninos deve ser no dia-a-dia. As crianças merecem e precisam do amor quotidiano. Querem brincar todos os dias. Com o pai, com a mãe, com os irmãos e avós. Se você, pai, se você, mãe, não tem pachorra nem tempo para deitar-se no chão da sala e brincar com os seus filhos, então, melhor seria não os ter feito. Não adianta dar um carrinho, uma boneca a uma criança, se você não tem capital de alma suficiente para lhe dar um beijo todos os dias, um simples abraço, ouvir-lhe a crónica do dia na escola, sentir com a criança as dores que se manifestam no seu organismo, as alegrias que ela vive com os amigos.
Se você tem tempo para ir beber cerveja ou champanhe com os seus amigos e colegas, mas não o tem para contar uma piada ou uma estória ao seu filho, então não festeje com ele o Natal. Não vale a pena. Esse filho será como você na vida adulta. Desinteressada da saúde mental do próprio filho. Será mais um adulto traumatizado, sem amor próprio.
E nós, adultos, também precisamos mais de afecto e carinho do que presentes materiais. É claro que se me oferecerem um automóvel de presente, recebê-lo-ei de bom grado. Mas não por causa do Natal, não por causa do meu aniversário. Gosto de receber presentes, simplesmente porque alguém me ama e me trata com respeito. E, se alguém não tem dinheiro suficiente para me oferecer um carro, o seu sorriso me basta. O seu respeito à minha pessoa é mais valioso que o carro. Dispenso presentes de alguém que me quer compensar de um mal que me tenha feito no passado. Muitos pais, muitas mães assim procedem. Maltratam os seus descendentes, às vezes por erro de julgamento e, depois, arrependidos, dão um presente a quem já feriram.
Natal, para mim, é alguém me acenar com a mão e me sorrir. O réveillon me acontece, quando aquele colega da escola primária me saúda ou me telefona, a perguntar como vai o meu emprego, a minha família, sem medo que eu lhe peça uma benesse qualquer, só porque agora é do Governo ou deputado e ficou rico.
O Natal, para mim, é muito simples: é você, caro leitor, sorrir, mesmo de caxexe, quando acabar de ler esta crónica e levar esse sorriso à primeira pessoa que você encontrar.

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