Opinião

O neoliberalismo é uma ideologia

José Luís Mendonça

A mim espantam-me os nossos comentadores políticos de serviço quando reafirmam que “estamos numa época em que as ideologias estão mortas.”


Espantam-me, porque não estão mortas. Mortas estão as ideologias que ainda podiam, adaptadas à realidade de cada país e conformadas com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, emprestar à Humanidade um resquício de equidade e dignidade. 
Espanta-me muito quem diz que as ideologias estão mortas, e estão a referir-se concretamente ao nosso país, Angola. 
Cai sobre esta folha a memória do então secretário-geral dos camaradas, Lopo do Nascimento, quando disse, isto nos anos 90, se não estou em erro, e em vésperas do congresso do partido que o afastaria, que o MPLA, ideologicamente, podia considerar-se um partido social-democrata.
Foi a primeira vez que alguém forte dentro do MPLA havia feito uma enunciação concreta da nova ideologia do partido, após a queda do muro de Berlim que ditou o abandono da ideologia do socialismo marxista-leninista.
De lá para cá, desde a saída intempestiva de Lopo do Nascimento – e a menos que esteja turvada a minha memória – não mais ouvimos, nem confirmar nem negar ou substituir essa identificação social-democrata do MPLA. Ainda há dias, e da boca de um político da oposição, voltei a escutar a falácia política da não-ideologia dos tempos modernos. Dizer isso é chique. Está na moda. 
Quando se lançou com foros de prioridade nacional o programa de criação do “empresariado forte” em Angola e se andou a distribuir divisas e kwanzas a quem estivesse dentro do primeiro círculo da influência política e do nepotismo, estava-se era a agir sob a trave mestra da ideologia do capitalismo selvagem. Do puro mercantilismo: das relações sociais, dos afectos, do direito, enfim, até do próprio Ensino, que ditaria a decadência do valor artístico da nossa Literatura e da Cultura em geral. Desta acção reiterada e demorada resultou uma sub-espécie do neoliberalismo: o cabritismo egocêntrico, que é um autêntico erro de paremiologia.
Assim o mercado se tornou o verdadeiro partido de todos os cidadãos: compramos no shopping, vemos cinema no shopping, comemos no shopping, vivemos shoppinguizados, nós, as nossas mulheres e avós, os nossos filhos e filhas, amigos, colegas, o shopping é a nossa Mutamba dos encontros, mesmo das zungueiras que lá vão comprar o óleo barato para revender no Catinton.
Da omnipotência do mercado, da própria mercantilização dos afectos, resultou a acumulação da grande riqueza mundial (Angola incluída) na mão de quatro ou cinco magnatas, e a formação de brigadas inteiras de desempregados que depois são cooptados como mão-de-obra barata para os cartéis da droga, as máfias, os bandos criminosos e outros sub-empregos informais, como a zunga no caso de Angola e a venda à porta do cubico. 
O neoliberalismo é uma pura ideologia que, como o diz e bem George Monbiot, em artigo publicado no sítio Voyager, “se tornou tão omnipresente que quase nunca o reconhecemos como ideologia. Parecemos aceitar a ideia de que essa fé utópica e milenar descreve uma força neutra; uma espécie de lei biológica, como a Teoria da Evolução de Darwin. O seu anonimato é um sintoma e a causa do seu poder. Ele fez o seu papel e um número memorável de crises: a de 2007/2008, a transferência internacional de riqueza e poder, da qual os Panama Papers foram apenas uma amostra, o lento colapso da saúde e da educação pública, o ressurgimento das crianças pobres, a epidemia de solidão, o colapso de ecossistemas, a ascensão de Donald Trump. Mas reagimos a essas crises como se elas surgissem isoladamente, aparentemente sem saber que todas foram catalisadas ou agravadas pela mesma filosofia, que tem – ou tinha – um nome. Existe poder maior do que operar anonimamente?”

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