Opinião

O ovoscópio e o distanciómetro em tempos de insídia

Luis Alberto Ferreira |

O ovoscópio _ aparelho para verificar os ovos que pretendemos incubar _ e o distanciómetro _ aparelho para medir a distância a pontos inacessíveis _ estiveram, todo o ano de 2017, em greve ou “avariados”.

Esperemos até fins de Março do muito próximo 2018… e logo veremos quem, provido de autoridade mundial, consentiu ou incitou a deriva do ovoscópio e do distanciómetro. O Brexit, por exemplo, foi concebido sem a fundamental intervenção prévia dos dois aparelhos. 2017 traduziu-se num redondíssimo fartar vilanagem. Ou numa fenomenal “bruxaria” da insídia. Muitos jornais, os espanhóis e os norte-americanos, por exemplo, sequestraram, branquearam, metamorfosearam factos de forma despudorada e recalcitrante. O Nobel da Paz foi atribuído ao regente oligárquico-colonial de um genocídio que traz atormentados os indefesos povos da Colômbia, da Colômbia ameríndia e negra. Actualizadas com base na verdade, as contas evidenciam que, após a assinatura dos falaciosos “Acordos de Paz” em Havana (2016), cerca de 180 activistas sociais colombianos foram assassinados por sicários alinhados com o poder. (O presidente da Colômbia chegou a insinuar que os assassinatos resultavam de “questões pessoais ou entre vizinhos”!!!). Tempos de insídia. Aqui chegado, uma pequena trégua. Levo anos com o ovoscópio e o distanciómetro ligados aos quatro continentes que conheço. A trégua é o patrocínio de uma reflexão mínima _vamos para um Novo Ano _ sobre o valor da vida, dos afectos, das lealdades, das solidariedades, da honestidade, da sinceridade, da transparência, da equanimidade, da piedade. Enfim, mergulho de novo  neste feroz e encapelado mar da actualidade que vivemos e dos imediatos futuros que nos aguardam. As profissões de fé que cada um de nós emita, ou subescreva, não podem eludir factos. Forças contingentes perigosa e poderosamente influenciais arrogam-se o “direito” de decidir por nós _ e as suas lanças de largo alcance tumultuam, manipulatórias, sobre as nossas cabeças, as nossas culturas, os nossos patrimónios, as nossas riquezas. É preciso decidir _ sabendo decidir. É preciso derrotar a ignorância e a indiferença. As resignações ofegantes e o passo atrás cautelar animam, encorajam o dragão e os dragonetes. Há flagrantes assombrosos, estremecedores.  A Revolução na Rússia dos czares aconteceu há 100 anos. Mudou o destino de imensos anfiteatros de trabalhadores do campo e da fábrica, alertou-nos para a ameaça de novas escravidões e impunidades. Uma coligação de 14 países invadiu a Rússia dos bolcheviques e ali causou 6 milhões de mortos. Nas fileiras da juventude mundial, facto notório, ninguém “reparou” na efeméride. Os telemóveis multiusos alteiam-se em novos e reiterados nevoeiros da ignorância. Na Argentina, 725 assassinatos nos 721 dias da “governação” de Maurício Macri. Washington cortou 285 milhões na contribuição para as Nações Unidas. Represália pela postura da ONU _ recriminativa da mudança da capital de Israel para Jerusalém. Pressuroso, o presidente da Guatemala, uma ex-“vedeta” popularucha do teatro cómico, logo anunciou que a embaixada do seu mísero país iria mudar de Telavive para Jerusalém. Gesto que o líder israelita saudou nestes termos: “Deus te abençoe, Guatemala! Outros seguirão o exemplo…”. Na lista infernal dos crimes do Estado guatemalteco figura o caso das 60 raparigas ameríndias queimadas vivas no interior do “Lar Virgem da Assunção”, gerido pela chamada “Secretaria de Estado do Bem-Estar Social da Presidência da República da Guatemala”. Aconteceu em Março deste ano. Violadas, dia após dia, por polícias e outros funcionários, muitas delas escapuliram-se do estabelecimento. Para evitar que outras seguissem o seu exemplo, polícias e militares encerraram-nas num compartimento e procederam à sua cremação. O “presidente” da Guatemala, agora “abençoado” por Israel, guarda silêncio sepulcral sobre esta monstruosidade. Terá o ovoscópio funcionado quando a antiga Sociedade das Nações foi concebida? As Ilhas Marshall fizeram o mesmo: mudança para Jerusalém da sua representação diplomática. Quantos autocratas, executivos e empresários vivem por lá? Nenhum. Nas Ilhas Marshall sucedem-se, desde há anos, com centenas de vítimas entre os nativos, ensaios… nucleares. No Perú, outra monstruosidade atroadora. O actual presidente, o judeu germano-polaco-gaulês Kuczynski, na sequência de um escandaloso suborno que lhe valeu, de uma multinacional, grossa maquia, estava prestes a ser, dentro de dias, em Lima, derrubado por um “impeachment” fulminante. Na oposição tripudia o cúmplice partido político de Keiko, a filha do genocida Alberto Fujimori, a cumprir uma pena de prisão de 25 anos por massacres populacionais, pilhagem do erário nacional (mil milhões de dólares) e associação criminosa. Eis que se produz uma das mais vergonhosas acrobacias “políticas” nas Américas “bananeiras” deste século: a troco da ilibação do corrupto Kuczynski, actual presidente, este “decreta” um indulto que devolve à liberdade o carniceiro Fujimori. Uma repugnante troca de favores entre infractores e torcionários. O peruano-japonês cumpre, assim, apenas 8 dos 25 anos a que havia sido, com muita brandura, condenado. Do exercício presidencial de Fujimori recorda-se, entre outras chacinas, o histórico massacre de La Cantuta: mais de uma dezena de estudantes e um professor da universidade regional assassinados, incinerados e sepultados em valas clandestinas. “Peço perdão… bem do fundo do meu coração”, rosnou o carniceiro Fujimori ao saber do indulto. Há toda uma cintura de cumplicidades, mundo fora. A África, entretanto, libertou-se já da gravitação discricionária e imbecil de um epíteto: “selvagens”. Nós até conhecemos a localização geográfica dos verdadeiros selvagens e predadores da humanidade e dos recursos naturais. Já percebemos o manobrismo da globalização impositiva. Em 1998 conheci em Chiapas, sul do México, o filósofo e investigador alemão Carlos Lenkersdorf. Um libertário. Dele recordo: “A cosmovisão ocidental nem é única nem universal, é provinciana, é apenas uma entre outras”. Bom para reflectir ou receitar.
27-Dezembro-2017

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