Opinião

O poder no feminino

Víctor Carvalho

As mudanças que se estão a operar na Etiópia, sob o comando do Primeiro-Ministro Abiy Ahmed, são vertiginosas e estão a quebrar uma série de tabus que estavam institucionalizados numa sociedade com uma histórica tradição secular onde a mulher sempre foi subalternizada em relação ao poder do homem.

A aposta que o jovem Primeiro-Ministro, de apenas 42 anos, está a fazer nesta nação africana com cerca de 102 milhões de habitantes, pretende alterar a visão que os cidadãos tinham da política e também sublinhar a importância da mulher no seio da sociedade, um desafio que se estende aos países vizinhos, onde a discriminação social através do género continua a ser marcada por uma enorme desigualdade.
Perfazendo cerca de metade do total da população, as mulheres etíopes estavam até há dois meses confinadas a trabalhar no campo ou a preencher lugares secundários no aparelho da administração pública.
Foi pois com uma grande surpresa que há dois meses  Abiy Ahmed anunciou a constituição de um novo Governo, onde metade do total das pastas foram entregues a mulheres, entre as quais se contam algumas das mais influentes, como a da Defesa. Uma inovação nunca vista e que contrasta, por exemplo, com que o fez o seu antecessor, Hailemariam Dessalegn, que nunca teve mais de quatro mulheres nos executivos que dirigiu.
À visível presença feminina no Governo, junta-se o facto da Etiópia ter igualmente uma mulher na presidência do Tribunal Supremo.
Trata-se da juíza Meaza Ashenafi, uma proeminente defensora dos direitos humanos que inspirou a personagem de um filme protagonizado por Angelina Jolie em 2014.
Na lista das mulheres que actualmente detêm mais poder na Etiópia estão ainda a antiga comissária das Nações Unidas, Sahle-Work Zewde, actual Chefe de Estado, e a especialista em comunicações, Billene Aster Seyoum, que é a nova secretária do Primeiro-Ministro para as relações com a imprensa.
O papel que vai ser desempenhado pela  Presidente Sahle-Work Zewde, embora sem grandes poderes executivos já que a constituição etíope os concede ao  Primeiro-Ministro, é fundamental a nível internacional, porque será ela a representar a Etiópia nos grandes areópagos internacionais e também nos contactos internos com os altos dignitários que visitem o país.
A lista de mulheres com grande peso político na Etiópia foi mais recentemente complementada com a indicação de Birtukan Mideksa, uma antiga juíza e figura destacada da oposição, para assumir a presidência da Comissão Eleitoral com a especial missão de preparar as eleições previstas para 2020, depois de ter estado durante 13 anos exilada nos Estados Unidos da América.
Outras mulheres com poder político na Etiópia são a antiga ministra da Construção, Aisha Mohammed, a quem foi entregue o Ministério da Defesa e a antiga presidente do Parlamento, Muferiat Kamil, actual ministra da Paz com a responsabilidade de dirigir a polícia e os serviços de inteligência internos e externos.
A importância destas duas mulheres em postos chave do Governo revela ainda a intenção de Abiy Ahmed promover um maior equilíbrio étnico no Executivo, já que se tratam de duas muçulmanas que representam, por isso, um grupo minoritário no país mas que se tem vindo gradualmente a afirmar, nem sempre pelos melhores e mais pacíficos motivos.
Sendo o próprio Abiy Ahmed membro do grupo étnico maioritário oromo, a presença de muçulmanos em postos decisivos proporciona um maior equilíbrio e evita as anteriores situações de discriminação que não poucas vezes resultavam em violentos confrontos.
Entre nós, numa altura em que temos uma sociedade civil cada vez mais interventiva e rigorosa, o crescente aumento do número de mulheres em cargos de decisão política, empresarial e partidária tem sido caracterizado pela escolha de pessoas de comprovada competência e, por isso mesmo, capazes de emprestar aos diferentes sectores uma importante mais-valia para a consolidação da democracia e da promoção do desenvolvimento económico e social.
Quando se revela cada vez mais imperiosa a colaboração de todos no resgate dos valores morais que fizeram a nossa história, o poder feminino é uma componente imprescindível para o esforço comum de fazermos de Angola um país cada vez melhor para todos os seus filhos, na rigorosa  exigência pelo estrito cumprimento da lei, pelo respeito, pelo erário público e dos direitos e garantias de todos os cidadãos.
Um caminho que se deseja sem retorno, trilhado com os cuidados especiais para se não repetirem erros do passado e para que aquilo que deveria ser de todos nós seja efectivamente desfrutado sem qualquer discriminação, seja de género ou de diferenciação entre os mais ou menos poderosos.

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