Opinião

O quadro de confiança entre a fonte e o jornalista

Rodrigues Cambala

Já se tornou comum, no final de uma entrevista, a fonte de informação fazer pedidos que não podem ser satisfeitos. Há dias, passei por uma situação idêntica.

Acredito que a maior parte dos jornalistas também já se deparou com perguntas e pedidos resultantes do desconhecimento das nossas fontes.
 A primeira pergunta que as fontes pedem resposta é a data da publicação de uma matéria jornalística e o espaço que vai ter no jornal. Outra não menos comum é se vai ser manchete. Sugerem-nos, inclusive, a cabeça do texto. Mas os jornalistas fazem questão de responder mesmo desconhecendo a  intenção final do gatekeeper (aquele que define o que será noticiado de acordo como valor-notícia). Só respondem para deixar a  fonte tranquila.
 Quando a entrevista é com políticos é ainda mais difícil. Os políticos da oposição manifestam alguma desconfiança quando o meio é público. Os da situação franzem a testa quando o meio é privado. Uns são mais impetuosos, pedindo ao jornalista que envie a entrevista antes de ser publicada. Porquê? É claro que esta situação pode decorrer de desconfiança do meio, do jornalista e, algumas vezes, do receio dos efeitos das suas declarações.
 A  desconfiança pressupõe receio de manipulação? Quando a fonte presta uma informação deve perceber que o fez dentro de um quadro de confiança ao jornalista e, de seguida, ao órgão. Não fosse a confiança, jamais falaria. Aliás, ninguém fala para desconhecidos. E quando se presta a informação, a fonte deve saber que, apenas, prestou dados, que passam por um processo de construção técnica, carregado de linguagem própria (jornalística) para a mensagem chegar de forma clara ao público consumidor das informações.
 Aqui, neste processo, a nossa fonte que nos confiou os dados perde propriedade parcial da informação. Reparte-a com o jornalista. O trabalho jornalístico não deve sair da redacção para a fonte. Mas, sim, para o consumidor.
O jornalista não deve ser um repetidor. É um técnico com elevadas responsabilidades sociais e inteligência profissional. O jornalista obedece a ética e a critérios editoriais e não deve obediência à fonte na forma de  tratamento da informação. Toda a entrevista deve ser dada dentro de um processo de confiança.
Quando isto escapa, ou seja não se encontra confiança, as assessorias partem para os prime times, na TV. Nos jornais, recorrem aos espaços de opinião, contratando opinion makers. Nas rádios, os assessores de imprensa encetam contactos para entrevistas em directo. Estes desdobramentos ocorrem porque as fontes temem que os media manipulem de forma dolosa, ou seja, intencional as suas declarações.
É bom referir que toda a informação publicada é manipulada. O processo de produção de um texto jornalístico ocupa-se disso. Como ocorre? Os gatekeepers definem os espaços de cada matéria de acordo com a sua importância, dentro de um quadro da subjectividade.
Felizmente, os jornais têm dimensões próprias, não são elásticos. Os textos jornalísticos são determinados por número de linhas e caracteres. A televisão e a rádio têm o tempo como um recurso importante. E os espaços noticiosos têm os horários rigorosos.
Quando abrimos os jornais, revistas e acompanhamos os espaços  noticiosos de rádio e TV, estamos diante de uma  manipulação necessária. Até aqui, os jornalistas estão isentos de culpa, desde que procurem reflectir o discurso da fonte.
 Manipular com o fim único de prejudicar a fonte é condenável de todas as formas. O jornalismo, tal como os códigos deontológicos  e as leis de imprensa associam-se à reprovação da manipulação dolosa. Os jornalistas não podem aproveitar-se do meio para manchar o bom nome de  um cidadão, nem podem deturpar as informações prestadas  pelas fontes.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia