Opinião

O rir à toa

Adriano Mixinge * |

O lugar social do riso na vida, na sociedade, na política e na cultura, em Angola, é cada vez mais proeminente. Antes da aparição da batalha dos Reis do Rompimento que podemos ver na Zap ou no Youtube, a estiga era só uma maneira imaginativa, cruel e banal de rir e de zombar de outros.

O riso fácil não era, entre os angolanos, uma característica relevante e muito menos vertebral até há uns vinte anos, quando as coisas começaram a mudar. Vemos o sorriso de orelha à orelha de um adulto como prova de espontaneidade, mas é o “fica lá mazé bem disposto” o esticão que activa em nós,  a descontração, a gargalhada e a  bonomia.
Rimos pouco no tempo colonial: se não fosse pelo “Mestre Tamoda”, depois, nem nos recordaríamos que para além da opressão, naquela época houve risos, brincadeiras e chacota. Depois da Independência, com o “Quem me dera ser onda” de Manuel Rui Monteiro,  a dupla “Pipof” e  “Cascadura” deu para rir. Porém, com “os recolher obrigatórios”, as rusgas, os cartões de abastecimento e a guerra à mistura, não rimos grande coisa.
Períodos houve em que rimos por decreto: o “Carnaval da Vitória” era a festa que mostrava o “sorriso amarelo”, próprio da ditadura do proletariado. Os que fizeram uma peça de teatro para criticar, rindo-se do Chefe foram banidos: rir passou a ter limites.
Com o multipartidarismo, a política tornou-se cómica e dramática. O Mfulumpinga tinha uma oratória que nos fazia rir e, por isso, não intuímos o seu trágico destino, coisa que empobreceu-nos. Pelo sotaque e a linguagem floreada, o Tchipilica é o angolano que mais chistes inventaram à sua custa:  ele fez rir os angolanos até ao dia que o vimos chorar, cantando, nas exéquias de Jaka Jamba. Makuta Nkondo fala muitas verdades, faz -nos rir à bessa. João Pinto, Bento Kangamba e Norberto Garcia são pioneiros da pós-verdade, em Angola. Políticos com sentido de humor escasseiam.
Na história de cómicos de televisão, o Beto Gourgel, na personagem de “Nganjeta”, divertiu-nos durante um período. O Sidónio e a Lembinha se situam nessa tradição que, no entanto, mudou: são uma espécie de “cómicos de serviços” e improvisam tanto no congresso de um partido político como numa festa de aniversário.  
Quando a guerra acabou, uns poucos endinheirados riram mais que os muitos empobrecidos e, de um lado para o outro, estavam aqueles que não sendo nem uma coisa nem a outra, umas vezes riram e outras não: o nepotismo, a corrupção, a bajulação e outros males sequestraram o sorriso genuíno da maioria. Estupefactos, vemos o “Fala a verdade” com a Patrícia Faria e o Bismarck  ou ouvimos os aúdios do Jójó para entender o lado oblíquo da nossa realidade. Exceptuando o site www.makaangola.org, o Folha 8, as crónicas do Gustavo Costa, os 15 +2 e outras poucas manifestações de irreverência, vingou o silêncio cúmplice. Não teve graça nenhuma.
O cidadão ri, em casa: rir é parte do oásis de felicidade, do “tchilo privado” ou do que desfrutamos nos écrans de televisão: no "Sempre a subir" do canal 2 da Televisão Pública de Angola ficaram registados  os momentos mais divertidos, ridículos e patéticos do período. Era para chorar. Os vídeos que o Da Beleza tem estado a postar online, ultimamente, retratam momentos satíricos e de excessos: são uma prolongação daqueloutros, nas antípodas do trabalho de Kitengo Kunga (Pato na área).
Depois de 2002, na década gloriosa do preço alto do petróleo,  do crédito chinês e de outras alianças estratégicas, no nosso país, a tipologia do riso tornou-se mais vasta. Calado Show, Os Tunezas - particularmente o Gilmário Wemba-, Edgar Tchipoia (Kotingo),  entre outros, fazem-nos rir umas vezes bem e outras à toa. O cartoon e a banda desenhada adquiriram maior acutilância, sendo Sérgio Piçarra a estrela absoluta neste domínio. Diversificou-se o género e pela sua imediatez, a internet passou a usar-se como medium principal:  “Mana Mingota”, “La Rose Menorah”, “Patty Almeida Metralhadora” e  Mel Gâmboa não brincam em serviço.
Ao rir  “à la largardère” tornamo-nos mais cómicos, adquirimos sentido satírico, passamos a gozar de nós mesmos, temos hoje uma  “gargalhada adulta”: com o estilo dos mais importantes espectáculos de Stand Up Comedy e dos noticiários satíricos de cariz político que existem no mundo, o “Gozaqui” com o  Agente Formiga, Ya Papi, Richa e o “Sopa Saber” com Ladilson, Tiago Costa, o Maestro, Dange José e a polifacética Renata Torres, entre outros, são provas da escenificação do “riso responsável”.
Há situações risíveis, que deveriam nos fazer chorar: no espaço público aparecem personagens que são um misto de caricatura, ídolos de massas e influencers. Presenciamos ocorrências dignas de serem percebidas como trágicas, mas que se recebem como cómicas. Outras há, que poderiam ser patéticas, mas assumimo-las como se tivessem piada. Mesmo assim, não devemos deixar de rir, ainda que riamos à toa para permanecer lúcidos.
* Historiador e Crítico de Arte

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