Opinião

O risco das doações

Santos Vilola

O que leva pessoas, singulares ou colectivas, ou governos estrangeiros a fazer doação de bens diversos, tecnologias, material hospitalar, escolar, alimentos ou dinheiro, a outro país, muitas vezes mesmo sem grito de socorro ou pedido algum? Puro altruísmo?! Também pensava que era meramente benevolência.


Hoje, sinto que eu era uma espécie de “optimista equivocado” até um dia saber que pelo mundo, as doações de governos estrangeiros já não são apenas gestos de caridade ou de altruísmo. Não chegam à classificação de presentes envenenados - é claro -, mas as doações de governos estrangeiros levantam hoje muitas suspeitas que levam alguns Estados a criar sectores de inteligência para estudar cada caso.
As doações de países estrangeiros encerram hoje uma complexidade e são motivo de estudos de agências de contraespionagem, porque são aproveitadas para a entrada de equipas de espionagem, branqueamento de capitais ou outros serviços de inteligência sob o disfarce da filantropia. Esses pretensos doadores normalmente envolvem pessoas da “socialite” do país que recebe a doação que não levantem a mínima suspeita.
As doações em dinheiro, por exemplo, de governos estrangeiros chegam até à política, e, aqui, são as mais perigosas para a segurança nacional. Proibidas em Angola por lei, pelo menos para financiar campanhas eleitorais, são contornadas pelos doadores e receptores longe dos olhos dos mais atentos.
Este tipo de doação dá acesso dos doadores a políticos mais influentes de um país. E, depois, comprometem os partidos que recebem as doações. Mesmo naqueles países em que é legal, como a Austrália, o receio é de que sujeitem políticos a ligações de “lobbies” estrangeiros bem organizados com fins minuciosamente estudados. />A generosidade extraordinária destes doadores estrangeiros dá acesso a figuras do Estado de órgãos de decisão importantes. Normalmente, estes doadores forçam uma convivência com os políticos, oferecem presentes por conta do dinheiro que têm e, quando são mulheres, chegam a casar com gente influente do país, como políticos, militares, magistrados...
Depois vêm os pedidos de retribuição pelos favores prestados há anos, com os quais os países que um dia receberam doações desta natureza já não podem recusar satisfazer.
O “modus operandi” destes doadores passa por pessoas instaladas no país receptor da doação que, de repente, saem do anonimato e são usadas como consultores de interesses do doador. Têm contactos e influência, e é nos eventos de beneficência que mais se revelam. Chegam a usar gente influente até para obter cidadania.   
Há países no mundo hoje que proibiram doações de países estrangeiros, sobretudo, aqueles com grande influência no mundo. Há espiões que canalizam donativos para campanhas de políticos, preferencialmente para países demasiado expostos que se tornam alvos de doadores ambiciosos.
Mas, no meio tudo isso, há também bons doadores, aqueles que só querem alargar o seu poder e influência no estrangeiro. Há ainda outros que são unicamente humanitários, mas esses são organizações transnacionais cujo escopo é mesmo o altruísmo e dependem de contribuições de países membros.

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