Opinião

O “tabu” e a saída não bicéfala no interesse do país

Adriano Botelho de Vasconcelos

O tabu não é algo que resulte apenas da tradição cultural, sobre isso temos muitos exemplos hilariantes,  como a proibição da prática de certas atividades socais que sejam moral, religiosa ou culturalmente reprováveis, dizem os dicionários.

Mas são os tabus de natureza política que pretendo apresentar também como sendo dos tipos mais complexos porque traduzem a vontade dos líderes que se isolam  dos demais, e, guardam uma importante “decisão” contra o relógio do porvir. A decisão esperada fica dependente do livre arbítrio do líder, mesmo quando se lhe fica fácil marcar em detalhe a agenda política para garantir o “previsional” facilitadora da organização. Dizem alguns estrategos que essa atitude gera algumas vantagens, tem sido assim em muitos quadrantes políticos, mas no nosso contexto partidário de transição, infelizmente, tem “riscos” que impactamo ambiente político e o foco governativo.
Mas para que o tabu político possa perdurar, geralmente os líderes exibem permanentemente a falta de unidade dentro do partido, e, por arrasto, da sociedade. Mas essa posição não deixa de ser essencialmente política, pois tem o intuito de esvaziar o debate para que diluam as novas preposições discursivas, pluralistas na sua essência, e, não matizadas nos ditames de uma coesão baseada na férrea disciplina. Nesse estágio, os líderes não se inibem no exercício refinado das técnicas de coibição,falam de fantasmas que nunca pretenderão identificar. Os líderes, nesses instantes de debate, deixam a voz humedecida, com toques de pura teatralidade, voz grave, corpo vergado como se o mundo e todos os mortais à sua volta fossem a força invisível que serve de causa da teoria do fardo ou do “não me entendem”. Repetem mil vezes que gastam os seus ricos esforços em levar ao colo as comunidades para a travessia do maior rio, entenda-se como o impulso milagroso que levará o povo à outra margem: a salvação. Devíamos todos saber que na política toda atitude messiânica tem um preço muito caro, evita que se possa discutir com profundidade os problemas que assolam as nações, porque passa a existir um só voluntarioso, líderes acima da razão e dos factos, os únicos que traduzem fielmente os interesses do todo. Quando assim acontece, assistimos a falência das sociedades, reina a estagnação, a inércia, pois outros saberes deixam de ser importantes.
Na mais pura esfera política, o velho fantasma da conspiração é simplesmente usado para aglutinar de forma cega os cidadãos e militantes, naturalmente uma artimanha impeditiva do livre exercício político, ao impor uma harmonia sem verbos, sem contra-argumentos e sem valores. Na verdade, nessas condições os cidadãos deixam de refletir sobre o que é melhor para o seu próprio país, os militantes tornam-se num número amorfo, e, na condição de anestesiados, retiram-lhes os direitos de escolhas, porque o “mito” é, em si mesmo, uma inspiração que gera os pactos de silêncios.
Nesse momento histórico, os cidadãos precisam de intervir usando o verbo para evitar que a política seja um manancial taticista que multiplique e amplie os fantasmas. Ela, a política dos nossos dias, deve ser a expressão mais fidedigna do provir e não uma vã tentativa de reciclagens da cultura política censurada pelos cidadãos. Não vejo como em Angola não se tenha uma ideia do que deva ser melhor em termos do poder político nas condições atuais em que temos um Presidente da República que tem resgatado os valores republicanos perdidos, numa atitude renovadora, um presidente que tem oferecido novos desideratos de governação. Acredito piamente numa saída não bicéfala, evitando a estratégia metafórica “de dois grandes cérebros” num só corpo, como exaltara como virtude, um meu camarada num momento de conversas de óbito,querendo-me convencerde que essa estratégia permitiria a melhor transição política,“sem turbulências”, vociferou. Temos perdido muito tempo em questiúnculas e minudências e o essencial não é debatido. Essas duas visões, apesar de legítimas, têm seus conceitos deixados à margem por muitos, como fazem as avestruzes, mas nos corredores e óbitos onde nos encontramos é um tema de debate muito concorrido.
O novo líder,  nas condições da crise tão profunda que vivemos, direi mesmo numa situação de múltiplas crises, só poderáempenhar-se em mudar o rumo do País se ele também puder ser o “salvador”. Trata-se, e só, de uma reafirmação política baseada em valores. Não terá outra volta a dar, mesmo nos ciclos de alternância na continuidade, será sempre ingente uma evidente renúncia às práticas do passado, até porque nesse domínio o líder joga o seu próprio sucesso. Nas teorias da ficção, as teias do passado não podem prender a alvorada, ela se renova quando a figura mítica do herói desfaz as lianas que o cercam. Todos os estudos indicam que os consulados longevos petrificam uma cultura que, por ter ficado enraizada até no imaginário dos sub-ditos, exige do novo líder um exercício de profunda alteração dessa mesma cultura. Este mesmo líder, para o fazer com sucesso, precisa de práxis alinhadas com as suas próprias convicções enquanto político eleito pelos seus cidadãos, uma legitimidade assente no poder sufragado. Em termos de metáforas, não vejo como uma das cabeças, num corpo siamês, não iria virar-se propositadamente para um outro azimute, para um outro vetor de confronto de egos. Num poema escrevi uma estrofe que diz que “todo ego é um fundo de espelhos”.
É verdade que todo projeto político procura a unidade, o que se designa de feitiço do “Um” (Claude Lefort), mas é a legitimidade da visão do “outro”, em tudo diferente na abordagem da visão oficiosa, que torna viável e portentosa a democracia. Não se deve aceitar que pela via do unanimismo ou da “ordem unida”, se passe para a destruição da política quando toda essa dinâmica que resultara das eleições exige do cidadão um posicionamento. E esse posicionamento hoje tem um alcance que coíbe as tentativas destrutivas das vozes dissonantes. Tudo porque o presidente da República, João Lourenço,  tem pedido de nós a maior desenvoltura, a maior predisposição à catarse, tem-nos surpreendido pela positiva. Certamente esse ambiente exigirá uma efetiva expressão de visões sobre o que deve ser a governabilidade (res publica), e, no Partido MPLA o direito a um congresso de escolha de uma liderança que deve passar pelo desafio de mais de um candidato em directas. Naturalmente, esse facto servirá para que não digam que João Lourenço, o líder que mais tem aberto a sociedade à democracia, se preze em artimanhas a impedir a alternânciano seu arco partidário, lá onde tem todas as hipóteses de vitória, sem desprimor de outros potenciais candidatos que teriam de dizer o que fariam de diferente e com que votantes.
Como defende Max Weber, “não inventemos”, sigamos por experiências já vividas pois podem ser perniciosos esses ensaios decididos numa cátedra sem janelas e o pior é quando a tentativa de redesenhos do “poder dual” não são discutidos de forma mais profunda em órgãos de grande representatividade no intervalo dos Congressos: o Comité Central.
Eis o desafio!

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