Opinião

O turismo e o desejo firme de mudanças

Filomeno Manaças |*

Passar do entusiasmo e das intenções à realidade, na base de uma actuação que tenha sempre por base o profissionalismo e as boas práticas que permitiram o sector crescer e desenvolver-se de forma sustentada noutras paragens, foi o principal motivo que levou operadores de turismo a reunirem-se quarta-feira no âmbito do IV Fórum organizado pelo LIDE Angola - Grupo de líderes empresariais.

Para mim uma ocasião para um banho de imersão no mundo das dificuldades com que se tem deparado o turismo em Angola; para a maioria dos presentes, sobretudo os operadores do sector - os que, portanto, põem a mão na massa -, mais uma oportunidade para revistar velhos problemas, velhos diagnósticos, mas, desta vez, com o desejo firme de mudança.
Mudança que querem com a colocação de quadros certos nos sítios certos. Mudança que desejam aconteça com a aplicação correcta, pragmática, dos financiamentos para o desenvolvimento do sector. Mudança que querem com investimento na criação e modernização das infra-estruturas e na formação de mão-de-obra por forma a assegurar a qualidade da oferta turística, mudança que reclamam seja feita através da reorientação das instituições para a sua vocação natural. Mudança que, enfim, apontam, deve ser lograda também com o retirar da gaveta de propostas que já existem, mas que não saíram do papel, e com a necessidade que se impõe de colocar um travão à degradação dos locais turísticos ou à sua “invasão” ou “ataque” por interesses e fins contrários a que se destinam.
A todos esses pedidos e de forma antecipada - pois falou antes de muitos dos intervenientes -, a ministra da Hotelaria e Turismo, Ângela Bragança, disse “Sim! Vamos mudar”, porque o Estado está preocupado com o “fraco” número de turistas que visitam o país e, por isso, prometeu, para os próximos tempos, um encontro multissectorial para tratar das questões do sector.
É voz corrente, entre os operadores do sector, que, 42 anos depois da independência, o segmento de mercado representado pelo turismo em Angola continua a ser uma área virgem, por explorar.
Em termos comparativos, só o Egipto, Marrocos, África do Sul e Tunísia - avançou a ministra - receberam o ano passado 30 milhões de turistas, contra 500 mil que visitaram Angola. A nível global estima-se que o turismo internacional chega a representar 30 por cento das exportações mundiais de serviços, podendo essa cifra atingir 50 por cento em países onde o sector representa uma das principais actividades económicas.
Em tempos de diversificação da economia, em tempos em que o Executivo assume de forma empenhada que quer construir uma nova realidade em vários sectores da economia nacional e, em particular, fazer do turismo uma verdadeira indústria que permita a entrada de receitas para o país e, por essa via, ganhe o relevo que lhe é devido nas contribuições para o Orçamento Geral do Estado, foi notório o renovado optimismo que pautou as intervenções apesar de, em relação as dos operadores nacionais, elas terem sido essencialmente marcadas por reclamações por uma maior atenção face ao que se passa no sector, que exige soluções integradas e o concurso dos demais porque, afinal de contas, o turismo não se resume a ter unidades hoteleiras e praias exóticas.
É preciso cuidar da segurança do turista, da sua assistência médico-sanitária de qualidade caso necessite, das facilidades bancárias, da facilitação na obtenção de vistos, das condições de viagem via terrestre e aérea, dos mapas e roteiros turísticos, culturais e recreativos, da gastronomia, etc. e etc., para que ele volte sempre e o mais breve possível.
As comunidades locais, por sua vez, devem ser devidamente preparadas, esclarecidas e educadas no sentido de, também elas, serem partícipes nesse processo, sem que isso ponha em causa os seus valores, os hábitos e costumes que regulam a convivência entre os seus membros, do mesmo modo que aos turistas deve ser passada a informação correcta sobre o que vão encontrar e, sobretudo, alertados para a imperiosa necessidade de respeito das regras que balizam a vida local.
E, afinal, não é tudo. Há muito mais por dizer e por isso é que, hoje em dia, já há muita bibliografia sobre o turismo como um ramo da economia que veio modificar profundamente, ao longo dos tempos, a visão que se tinha do sector, e contribuiu sobremaneira para a valorização de várias profissões. Muitas das quais só surgiram graças ao aparecimento do turismo como indústria com possibilidade de gerar rendimentos ao mesmo nível que outros ramos de negócios, que exigem investimentos de vulto e o retorno a médio-longo prazo é, garantidamente, satisfeito.
Em tempos em que o Executivo e os parceiros sociais procuram os caminhos para uma actuação mais acertada, valeu a pena o exercício feito.

* Director Nacional de Publicidade, a sua opinião não engaja o Ministério da Comunicação Social

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