Opinião

O Zimbabwe e os desafios do futuro

Sebastião Vinte e Cinco

O Zimbabwe, que chegou a ser conhecido como o celeiro de África pela sua capacidade de produção alimentar, foi, antes da ocupação pelos colonos britânicos no seguimento da sua “descoberta” por Cecil Rhodes em 1890, habitado por civilizações que chegaram a trabalhar o ouro e outros minérios, segundo arqueólogos que encontraram ruínas naquele território que sugerem a ocorrência num passado lingínquo deste tipo de actividade.

Antes da sua Independência e sob o domínio britânico o Zimbabwe, então Rodésia do Sul, chegou a fazer parte da Federação da África Central juntamente com a Niassalândia, hoje Malawi e com a Rodésia do Norte, actualmente Zâmbia, sendo que nessa altura revelou-se ser já uma potência agro-industrial. Em boa verdade foi nessa altura que passou a ser conhecido como O Celeiro de África.
A “prosperidade” deste país durou até ao último lustro do Séc. XX quando os efeitos nefastos dos déficits orçamentais começaram a fazer-se sentir na economia, com o encerramento de várias empresas até então absorvedoras de muita mão-de-obra ao qual se acrescentou a implementação da reforma agrária que, ainda que justificadamente, se se atender ao contexto histórico-político em que aquelas foram tomadas pelos “farmers brancos”, desapropriou muitos fazendeiros caucasianos das terras que vinham explorando.
O Zimbabwe chegou a ser um motivo de orgulho para os africanos e nessa medida terá servido de exemplo a ser seguido pela estabilidade e crescimento da sua economia comparativamente a economias mais abastadas e com mais potencialidades naturais.
Entretanto, a natureza heróica da luta pela Independência nem por isso terá sido conjugada com os desafios da gestão macroeconómica, e em muitos casos até mesmo sócio-política, que se reclama das lideranças de Estados soberanos  que, de regra, pensamos dever ser dirigidos com a menor carga de paixões, privilegiando-se antes o saber científico e as regras de gestão criteriosa dos bens públicos no atendimento às necessidades decorrentes da vida em comunidade.
Mais do que a alternância nas lideranças políticas, as comunidades humanas politicamente organizadas reclamam modelos (de gestão) económicos capazes de promover um mínimo de bem-estar para os seus integrantes sem que para tal seja estritamente necessário promover o combate às pessoas que não partilhem dos mesmos ideais sócio-políticos ou que em determinado momento histórico tenham aderido a orientações conflituantes com outrem.
A convivência de povos com origens e histórias diferentes sempre pode representar verdadeiras mais-valias a serem exploradas convenientemente  no interesse das comunidades, promovendo-se inclusivamente a conciliação de interesses opostos, o que não terá sido adoptado pelas lideranças políticas do Zimbabwe na medida em que, perante um cenário de dificuldades, enveredaram por caminhos tão sinuosos para as suas populações que levaram mesmo o partido que sustentou o Governo de Mugabe a destituir o seu líder não obstante reconhecerem nele uma figura incontornável e o homenageiem com a instituição do Mugabe’s Day.
O passado do Zimbabwe demonstrou claramente que a prosperidade das suas comunidades dependia da adopção de políticas capazes de transformar o seu potencial em verdadeiras riquezas e que a eleição de medidas populistas com o fito de agradar as populações só conduz a vitórias  efémeras. No longo prazo podem chegar ao ponto de precipitar a desacreditação das suas lideranças ainda que estas tenham tido um papel preponderante em determinados momentos históricos.
A legitimidade do poder político zimbabweano para promover a reforma agrária que consistiu no confisco das terras para novas privatizações com base em critérios subjectivos perdeu base com o agudizar da situação de crise económica, financeira, cambial e por conseguinte social que se instalou e parece ter feito morada no Zimbabwe desde o início do Séc. XXI.
Se por um lado o reerguer do Zimbabwe depende hoje da adopção de medidas diplomáticas capazes de demover os grandes potenciais investidores/financiadores da antipatia criada com a reforma agrária na medida em que se acredita ter sido motivada por questões raciais, por outro dependerá igualmente da evolução  e efectiva operacionalização da SADC enquanto mecanismo de integração económica regional de que aquele país é parte integrante e, porque não, da própria África que, infelizmente, continua a adiar o seu futuro pelo facto de grande parte dos seus líderes preferirem soluções egoístas,  de regra malfadadas.
A integração económica dos Estados e a promoção da regionalização das economias a par da adopção de medidas internas idóneas para a instalação de uma verdadeira cultura de gestão criteriosa assentes, mutatis mutandis, nas regras do cálculo económico, poderão ser os “remédios” de que o Zimbabwe necessita hoje para driblar o futuro de miséria acentuada que o aguarda tendo em conta o status quo vigente nas terras de Mugabe.

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