Opinião

Ocasião e ladrão

Osvaldo Gonçalves

A ocasião faz ou apenas revela o ladrão? Ficaríamos aqui horas se levássemos a conversa por um caminho mais filosófico, com referências à ética e à moral, às razões prática e pura, se recorréssemos a um discurso mais político-ideológico ou religioso, correndo o risco de ser acusados de um qualquer extremismo, de alguma inocência ou até espírito de maldade.

Vistas as coisas na perspectiva de que a ocasião “faz” o ladrão, podemos adivinhar os argumentos em defesa do acusado, seja do próprio, seja do seu advogado, em que, na tentativa de diminuírem a culpa, se chega mesmo a atirá-la para as costas da vítima, porque esta “se pôs a jeito”. Essa é a retórica recorrente dos predadores sexuais e dos autores de crimes de violência doméstica, na dificuldade de assumirem os erros.
A “marimbondagem” é especialista nesse tipo de comportamento. A crise é a principal desculpa, como se os criminosos fossem os únicos afectados pelas dificuldades económicas e financeiras. Mas, infelizmente, parte da sociedade foi contaminada por esse modus vivendi e o cidadão de bem é obrigado a desconfiar de tudo e de todos.
Qualquer oportunidade é aproveitada para delapidar seja o que for, não importa se a propriedade é pública ou privada. Dinheiro, carros, telefones celulares, roupas a secar, botijas de gás e até galinhas são surripiados, tal como cabos eléctricos, tampas de sarjeta, etc., tudo pode ser roubado, furtado, levado na calada da noite ou à luz do dia.
Nas ruas, contam-se anedotas, como aquela do sargento que sai da casa da amante onde não existe sequer dinheiro para o chá com pão para o matabicho dos miúdos e volta duas horas depois com o suficiente para todos almoçarem funji de ovo com chouriço e ele beber umas birras, assim como a do “chefe” que exige dos agentes de trânsito e outros subordinados, colocados em zonas estratégicas, que lhe “prestem contas”, semanal ou mesmo diariamente, dos valores “gasosados”.
Caso não cumpram as obrigações, são mudados para ruas menos movimentadas sem a quem cobrar “gasosa”. Enquanto isso, esquadras de polícia permanecem às escuras quando falha a electricidade da rede. O mesmo se passa com os fiscais, vistos nas ruas a correr atrás das zungueiras, a esmurrá-las e pontapeá-las, a levarem os produtos apreendidos não se sabe para onde.
O crime grassa e a Justiça demora ou nunca chega. Até os advogados, tal como os antigos “requerimenteiros” – apenas com o “sétimo ano do tempo colonial”-, são acusados de cobrar exorbitâncias e os bens que ostentam levam qualquer um a desconfiar.
Mais “realistas”, muitos dizem que a ocasião apenas revela o ladrão. Seria mais um chamamento da “razão pura”: o mesmo que se passa, por exemplo, com aqueles que não prevaricam por temerem as autoridades ou Deus. Não roubar ou não matar apenas porque, caso sejamos apanhados, somos levados a tribunal e condenados, ou por isso ser “pecado” aos olhos do Todo-Poderoso, que tudo vê e tudo pode, não faz de nós menos ladrões e assassinos. Seremos apenas temerosos, do mesmo modo que a ausência total de medo está longe de fazer de nós heróis.
Posto isto, somos mais inclinados a concordar que as ocasiões apenas revelam o que já somos: bons, maus, honestos ou incorrectos.
O mesmo se pode dizer em relação ao aproveitamento de cada situação, sobretudo, se essa advir da bondade ou suposta vulnerabilidade de alguém. Um telemóvel ou um isqueiro deixados ficar sobre uma mesa de bar, um saco com compras ou um lenço de bolso esquecidos no candongueiro têm o mesmo valor que um fio de ouro ou um maço de notas, igual que um cacho de bananas ou uma bolsa cheia de diamantes.
Afinal, a ocasião faz o ladrão ou apenas o revela?

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