Opinião

Orgulho das nações

Sousa Jamba

Em 1981, quando tinha 15 anos, li um artigo na revista “The Times” que me surpreendeu bastante. O republicano Ronald Reagan venceu a Jimmy Carter em 1980. Cresci entre refugiados angolanos na Zâmbia, maioritariamente ligados à UNITA. A eleição de Reagan era uma grande dádiva para nós, que éramos completamente contra tudo o que era comunista. Na altura li, num artigo, que os Estados Unidos exportavam trigo para a União Soviética.

Nós estávamos no meio da Guerra Fria, em que irmãos africanos trocavam tiros em nome dos dois blocos, mas afinal os mesmos tinham relações comerciais? Naquele momento passei a compreender que o mundo era um mundo mais complexo do que se pensava muitas das vezes. Foi na altura que o Mano Paulino Constantino Rosa Chissingue, que lia muito e sempre escutava o noticiário, falou-me da palavra “Realpolitik” — a noção de que a política era regida muitas das vezes por considerações práticas; os políticos diziam algo em público e faziam outra coisa em privado.
Em 1979, em Havana, Cuba, decorreu a conferência dos Países Não Alinhados. Lembro-me que na altura interroguei-me como Fidel Castro poderia ser presidente de uma organização de não Alinhados se ele era tão próximo da União Soviética. Conclui que na política nem sempre o que se dizia correspondia à realidade.
Pensei nisso depois de ter ouvido, nos últimos dias, que a Rússia pretende ajudar os Estados Unidos na luta contra o coronavirus. Os americanos aceitaram a ajuda prontamente. Já houve vários desastres nos Estados Unidos em que a Venezuela ofereceu ajuda, mas que foi prontamente rejeitada. Médicos chineses foram para a Itália partilhar o seu conhecimento na luta contra o coronavirus. O mesmo foi feito por médicos cubanos; actos deste género são sempre acompanhados com alguma ostentação mediática para realçar a grandeza de quem oferece. Há sugestões que os americanos estão a ponderar a possibilidade de aceitar ajuda da China. Alguns comentaristas estão a afirmar que tal possibilidade irá assinalar que os americanos estão finalmente de joelhos — o que é absurdo. Os americanos devem aceitar ajuda de qualquer parte do mundo da mesma forma que sempre ajudaram os outros povos.
O antigo ministro do Interior do Reino Unido, Douglas Hurd, fez um discurso nos anos de 1980 em que afirmou que, com a sua história e reputação, o Reino Unido poderia ainda competir com os pesos-pesados das nações. Vivi uma boa parte da minha vida no Reino Unido e lembro-me de mais velhos, cheios de saudades, a falar do tempo quando o sol não caia no Império Britânico. Um dos argumentos dos proponentes do Brexit era que na Europa o Reino Unido tinha que sair da sombra da gigantesca Alemanha para retomar o seu verdadeiro esplendor.
Quando se fala de orgulho das nações, entramos no território das desilusões colectivas. Muita gente tenta entender a devoção canina que o povo da Coreia do Norte tem para com a família que reina sobre aquele país. Há quem diga que está tudo ligado a uma noção sobre a pureza do sangue. Os norte-coreanos acreditam numa noção de pureza de sangue que tem que ser defendida a todo o custo. O que vem de fora, os estrangeiros, são impuros e podem diluir a integridade desta grande família. Temos aqui uma versão do “Deutschland ubër alles” — “Alemanha acima de tudo!”
Alguns anos atrás, havia uma teoria segundo a qual o mundo estava a conhecer uma onda de nacionalistas da direita — Trump nos Estados Unidos; Bolsonaro no Brasil, etc. Claro que o apelo destes líderes populistas era permanentemente definir o mundo como estando numa luta constante entre o bem e o mal. Trump e Bolsonaro tinham como vilão principal a China. Pequim, por seu lado,?também insistia numa retórica que realçava as falhas do resto do mundo. Está mais do que claro que faltou transparência por parte da China em revelar o que verdadeiramente estava a acontecer com o maldito vírus. A forma tão cruel que o médico que revelou a existência do vírus foi tratado, demonstra a obsessão das autoridades chinesas em sempre estarem bem na fita a todo custo. Cá está um caso clássico de orgulho nacional que certamente custou milhares de vidas no mundo.
Em 1986, em Londres, eu lia assiduamente as reportagens sobre a União Soviética no jornal britânico “The Independent” do seu correspondente em Moscovo, o falecido Rupert Cornwell. Cornwell tinha a tese de que por causa do seu demasiado orgulho, a União Soviética estava a viver num mundo onde a retórica oficial estava em dissonância com a realidade no terreno. A economia da União Soviética, ele escreveu na altura, era um caos que não podia perdurar. O coronavírus está a demonstrar que há momentos na história em que as nações devem pôr a retórica inspirada pelo orgulho nacional de lado e concluir que nada é mais produtivo do que a cooperação entre as nações.

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