Opinião

Os hackers são mesmo piratas?

Manuel Rui

Na minha adolescência li todos os livrinhos do capitão Morgan. Um pirata dos mares que fazia aproximação, lançava cabos, fazia amarrações ao navio a assaltar, ele e seus marinheiros derrotavam com espadas e lanças os assaltados, matavam tudo, saqueavam, faziam o transbordo da mercadoria e deixavam o barco derrotado a incendiar. Os livrinhos não tinham ilustrações, só a capa com o capitão de vermelho e preto, botas até ao joelho, uma pala na vista direita e a bandeira preta do barco com uma caveira e dois ossos atravessados e de cor branca.

Só mais tarde soube que a palavra pirata é de origem grega e que, sumariamente, significa alguém que de forma autónoma ou organizada em grupos, cruza os mares para saquear e pilhar navios e assalta cidades para obter riquezas e poder.
A história esqueceu demais que muitos dos nossos antepassados que foram obrigados a entrar nos barcos negreiros como escravos com destino ao Brasil, assistiram a ataques de piratas e foram roubados por piratas e vendidos para outro destino.
A história da pirataria vai, principalmente, do séc. XVI a XVIII. O corso (pirata ou corsário) Manuel Pessanha foi contratado pelo rei português D.Dinis (séc. XIV) para pirata que ficava com um quinto da riqueza dos barcos e com os navios e as armas destes. A partir de 1443, os piratas portugueses, passam o tributo, tal como pagavam a D. Dinis, o tal quinto, para o conde D. Henrique. Quem diria que Vasco da Gama, na Índia também atacou embarcações. Era assim que os portugueses deviam ter começado a ensinar história à minha geração…
Já no séc. XX, o capitão Henrique Galvão, português antissalazarista, mais uns cambas de esquerda, inauguraram um novo tipo de pirataria sem interesse de saque ou riqueza. Assaltaram o navio Santa Maria e andaram com ele fazendo propaganda contra o regime fascista português até abandonarem a embarcação no Brasil. Mais tarde, um grupo de jovens nacionalistas angolanos, com uma pistola no coco do piloto, desviaram a rota de um avião para o Congo. E, por mor de Cristo e Maomé, começou a pirataria aérea que alterou por completo os mecanismos de segurança dentro dos aviões, as polícias de fronteiras e novas regras sobre controlo de bagagens e revista dos passageiros.
A evolução da tecnologia quase coloca já o homem a ser ultrapassado por aquilo que ele próprio inventou: a robotização que quase nos vai comandar. Nos dias de hoje, os hackers transformaram-se em pessoas problemáticas e temidas como alguém que denuncia todos os adultérios do mundo. Denúncia ou intromete-se na vida dos outros?
Em inglês, o verbo hack quer dizer cortar alguma coisa de forma irregular ou grosseira. A partir dos anos 50 do séc. XX, o termo passou a ser usado para referir uma alteração inteligente em qualquer máquina até que chegou à informática. Aí, grandes empresas contratam hackers para a segurança dos seus serviços informáticos, melhorar o sistema e prevenir ataques. Já se distinguiu ackers de crackers sendo o objectivo destes danificar ou modificar um sistema para obter um tipo de benefício. Mas o mundo boceja ante a figura de dois hackers que andam na ponta das navalhas políticas e judiciais para uma tipologia bifacial entre o interesse público e a intromissão na privacidade de outros.
O activista australiano Julian Assange criou em 2006 o Wikileaks para divulgar injustiças de “regimes repressores.” Em 2007 já havia espalhado mais de um milhão de documentos, incluindo o manual de procedimento militar no Campo Delta da base norte-americana de Guantánamo em Cuba. O activista ensarilhou-se com eventuais crimes sexuais na Suécia, pirou-se para Londres e pediu asilo político na embaixada do Equador. Aí ficou até ter mudado o presidente do Equador e Assange, a pedido da América foi entregue às autoridades inglesas para julgamento mas os americanos querem mais: que o acker seja remetido aos Estados Unidos para lá ser julgado.
O outro famoso hacker, o português Rui Pinto, revelou o submundo da sujeira do futebol. FIFA, UEFA e Federações são parte intocável da sociedade com as suas regras próprias e fazendo girar milhões pelas formas menos lícitas. Este Acker que está preso em Portugal, trazido da Hungria, prestou serviços a estados europeus. Aqui começa a diferença. Há quem defenda que estes dois hackers prestaram serviço público ao mundo e outros que entendem que devem ser condenadas por se intrometerem na vida dos outros, por vezes usando a extorsão.
Sejam quais forem, as posições face ao hackers, vamos comprando antivírus inventados pelos que inventaram os vírus.
Mas o certo é que chegámos a um momento em que a heurística e hermenêutica, ciências auxiliares da história, quase ficam reduzidas a zero. Os historiadores quase não têm a possibilidade de levantar o tapete da humanidade para olhar esse lixo que se esconde à história. O trabalho de um só hacker tem mais quantidade do que mil historiadores. A informática e os hackers vão exigir novas metodologias para repor o lixo que se esconde da história.

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