Opinião

Os horários e o desenvolvimento

Adriano Mixinge | *

Até mesmo quando as razões justifiquem, não há dúvida nenhuma de que, a impontualidade é uma forma de deselegância, nunca assenta bem para quem é a vítima dela.

 Desde há uns dias que, por razões alheias a minha vontade, chego atrasado aos vários encontros, coisa que me incomoda bastante, mesmo sabendo que acontece com muita mais frequência que, são os outros os que, pura e simplesmente, nunca estão a horas onde combinamos que deveriam estar.
Acontece amiúde que muita gente chega atrasada e há quem o faça deliberadamente e isso é mau: a deselegância da falta de pontualidade irresponsável é parte de um círculo vicioso, sem sentido e de mau gosto que, na verdade, só atrasa as nossas vidas, deixa-nos reféns das contingências.
Quando for propositado, ser impontual é um hábito medíocre, de gente que não sabe nem está contente consigo mesma e quer transferir à terceiros o manto de irresolução e inércia que os condiciona: não sabem que, pelo contrário, a pontualidade é sinal de decisão, vontade de empurrar a vida para adiante.
Os que nunca chegam deliberadamente a horas,querendo, com esta reles forma, abandalhar os outros ou, pior pretendendo pôr os seus interlocutores num nível inferior ao seu, na verdade, colocam-se no lado da gente banal. Não o sabem, mas, este é a síndrome da pequenicemá, doentia e irrelevante.
Os que chegam tarde aos encontros, às reuniões de trabalho, aos pequeniques, aos brunches, aos almoços de sábado à tarde e ou até mesmo aos cafés para o brainstormingnosso de cada dia como se isso fosse o normal, quando o normal, na verdade, não é nada disso, são escravos de um capricho nada rentável, que chega a ser parvo. Os atrasos fazem que tudo fique mais lento.
O ideal é não atrasar, nem perder tempo em desencontros, avisar com antecedência qualquer imprevisto, antecipar-se: adoro os interlocutores que cumprem os horários, mudam e ou se sobrepõem a qualquer contingência para possibilitar um encontro fluido, que ajude a sedimentar acções futuras. É evidente que a pontualidade ajuda à rentabilidade das empresas, ao ser também uma mostra da eficiência dos profissionais. Mas, interessa-me entende-la também como uma questão de compromisso e de respeito para com os outros: não importa a que nível for, a pontualidade é uma forma de respeito. Devemos tratar de ser mais pontuais, porque, ainda que surpreenda, o ritmo da vida tem a mesma cadência e a exigência que o ritmo dos orgasmos tem: estão todos mais satisfeitos quando se satisfazem e se for ao mesmo tempo, melhor. Isso faz-nos crer, que a felicidade é mais parecida ao ponteiro de um relógio do que aos solavancos de uma agulha bêbeda.
Ao contrário do que muitos pensam ter uma alta e boa qualidade de vida, na verdade, tem mais a ver com os horários e a programação do que queremos que aconteça. Prever o que acontecerá ou o que queremos que aconteça amanhã dá-nos uma tranquilidade que a imprevisibilidade das coisas não nos dá. Vivia eu num bairro de ricos da alta burguesia espanhola, em Pozuelo de Alarcón, em Madrid, e a preocupação dos meus cultos e endinheirados vizinhos era saber o que previa eu para os meus filhos, prestes a fazerem dezasseis anos de idade: eles tudo farão para que o seu neto seja engenheiro aeronáutico e tudo fazem para que ele, desde a sua mais tenra idade, tenha contacto com esta área do saber, que vá aprendendo e construindo networkings, aproximando-se de outros adolescentes que têm os mesmos interesses que ele e, isso, faz-lhe feliz.
Não saber ou não poder prever o que os nossos filhos vão estuda e ao que querem dedicar-se no futuro é como não saber absolutamente nada sobre eles, coisa que só pode ser uma irresponsabilidade e um signo de pobreza. O ritmo das nossas vidas, normalmente, coincide com o das nossas opções e escolhas: mas, é preciso chegar a tempo em cada fase, em cada lugar, em cada encontro. A cadência deles pode ser, em muitos casos, determinante: cumprir os horários deveria ser qualquer coisa de básico, simples e parte das nossas rotinas, como cidadãos e como país.
Fazer um estudo sobre o impacto dos horários e da pontualidade na vida das pessoas, analisar em que medida muitos dos horários das instituições e dos serviços não são tão apropriados para o cidadão, nem se correspondem aos hábitos, aos costumes e a idiossincrasia de determinadas regiões do nosso país ou, até mesmo, por exemplo, se não haveria que utilizar dois fusos horários diferentes para se aproveitar melhor as horas de luz e sol, num país tão extenso como o nosso, talvez não fosse assim tão descabido. Durante vários meses do ano, ao sul do equador, amanhece mais cedo: criar uma estratégia para rentabilizar economicamente este facto poderia ser útil tanto como assumir que a maior pontualidade será o desenvolvimento individual e colectivo.
*Historiador e crítico de arte

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