Opinião

Os meninos peixe secos

Adriano Mixinge | *

Não há lago nenhum na zona, nem rio que passe por perto, o mar está longe e eles não são anfíbios. Vejo-lhes numa das esquinas do meu bairro: uns seis meninos que devem ter entre nove e treze anos de idade. Encontro-lhes sempre no mesmo sítio.

Ficam à sombra, parados, de pé e ou sentados, a riscarem o chão com algum pau ou a falarem entre eles debaixo de uma árvore, em cujos troncos penduram saquinhos de água com peixinhos: gosto mais dos vermelhos, mas os cor-de-rosa e os azuis não me desagradam. Nunca têm cadernos ou livros nas mãos, nem mochilas nas costas. Cada um dos meninos traz uns três ou quatro saquinhos e, em cada um deles, entre dez e vinte e dois peixes de várias cores.
Vendo os peixes na água e dentro dos saquinhos parece que carregam um arco-iris diminuto e repartido em várias partes: quando chegam, eles trazem-nos agarrados aos punhos e, depois, suspendem-nos na árvore como se os quisessem livre quando o que almejam, na verdade, é vendê-los.
De vê-los sempre aí, nem sei ao certo se aqueles meninos também não estão dentro de algum saco de que eu não vejo nem saiba os contornos, nem os limites e os propósitos.
Também, não sei se os seis meninos sabem nadar nem se estão doentes. Não aparentam nem uma coisa, nem a outra. Não são nem paralíticos nem têm os corpos atrofiados: têm ar de estarem saudáveis e que as famílias deles viverão nas proximidades. À simples vista nem sempre podemos saber com absoluta certeza de que substância está feito um ser vivo, uma matéria inanimada ou até mesmo um morto, nem como um é diferente dos outros.
Há dias que, se me dissessem que aqueles meninos são esculturas de cera, o mais provável é que tivesse dificuldades em duvidar: ficam demasiadamente quietos para o meu gosto. Ainda assim, dou por sentado que estão vivos: eles gastam a maior parte do tempo à espera do prazer de vender peixes, quando deveriam estar a desfrutar do infinito prazer de aprender. Há qualquer coisa de mais vital que eles, estando aí parados, perdem.
Os seis meninos não estão nunca dentro da água, nem nunca os vi a transpirarem, nem sei se o fazem. Durante o dia, brisa que é brisa, não me consta que por ali corra: o ar e o tempo ficam suspensos como eles suspendem os peixes e como cativa-os a adoração pelos peixes. Parece não incomodarem-se com o calor que, normalmente, há a volta das árvores pouco frondosas que lhes abrigam: intuo que devem gostar de brincar com as sombras que, de maneira aleatória, a certas horas do dia, passeiam sobre os seus corpos, da cabeça aos pés.
Para além das folhas das árvores e dos peixes a mexerem-se nos cárceres de plástico, só os carros que passam certificam que há movimento na área.
Quando passo com os vidros fechados do carro, o silêncio ou a rádio ligada separam-nos em galáxias diferentes. Há vezes que os oiço proferir gritos inconexos quando correm em tropel antes do que imaginam que poderá ser uma venda. Mas, nem sei se sabem falar bem, ler ou escrever, nem mesmo se vão à escola regularmente: vejo-lhes presos àquele lugar como uma insistência desesperante. Os dias e as pessoas passam indiferentes como se eles nem meninos, que ali estão sem adultos por perto, fossem.
Seguramente os meninos não sabem, que os nós que eles fazem e desfazem para amarrar e para desamarrar dos troncos os saquinhos das árvores cada vez que um cliente quer comprar-lhes algum deles são tão bonitos como os doze nós de marinheiros, apesar deles não terem que pescar nada antes de ali estarem.
Vejo-lhes quase sempre e só não me aproximo mais, nem paro, porque sei que se o fizer eles pensariam que eu estaria interessado em comprar-lhes algum dos saquinhos e eu, francamente, não estou. Acho-lhes mais tristes que os peixes que querem vender. Geralmente, eles olham para os carros, na esperança de ver um sinal: se algum motorista parece encostar à berma da estrada ou abrandar a marcha, eles sobressaltam-se e vão rapidamente à janela do carro, a espera de vender aqueles peixes para o aquário de uma casa que nunca conhecerão.
Aos seis chamo-lhes de meninos peixes, mas o mais provável é que, de tão desamparados que lhes vejo e mesmo sabendo que os há ambulantes, recordar-lhes-ei injustamente como os meninos peixe secos, por estarem ali parados. Nunca vi ninguém dizer-lhes nada, nem vi muita gente a discutir em público a possibilidade de haver leis para controlar os menores não acompanhados, impedindo que possam estar e ou andar por aí sozinhos.
As leis deveriam proteger-lhes, prover de recursos adequados às instituições e com as famílias retirar-lhes urgentemente da rua e pô-los na escola, de manhã e de tarde: desde muito cedo, deveríamos ensinar-lhes que para enfrentar a vida precisarão mais da rebeldia do conhecimento do que carregar e vender centenas de peixes coloridos.
* Historiador e crítico de arte

 

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia