Opinião

Os perfis falsos e os novos mecanismos de combate

Eduardo Magalhães |*

Uma complexa operação do SIC pôs fim ao uso de perfis falsos criados nas redes sociais para a prática de crimes diversos. Uma quadrilha localizada na província de Cabinda usava nomes de entidades, instituições e outras figuras públicas e aprofundava o aliciamento das vítimas através de ligações telefónicas.

Esta operação serve de alerta para que os angolanos estejam mais atentos, mas também para que os criminosos percebam que não estão numa terra sem lei.
É lamentável que em tempos de pandemia, quando a vida de todos está sob ameaça, criminosos façam uso das redes sociais para tirar proveito da boa-fé das suas vítimas. Como se não bastassem as notícias falsas, conhecidas mundialmente como fake news, esta “digitalização do crime” é mais um desafio que exige das autoridades e da sociedade a atenção redobrada para que possa ser combatida com eficácia.
É tudo tão novo neste mundo virtual que até mesmo a imprensa em sentido amplo deve estar atenta para não transformar a cobertura jornalística desta importante acção policial num telecurso de fomento a este tipo de crime. A crítica e a abordagem devem ser profundas, pois - numa análise mais rigorosa - devemos observar que o problema está não apenas nas consequências, mas também nas causas.
Temos sido invadidos pelas grandes revoluções da era digital. A nossa forma de conviver em sociedade agora inclui um conjunto de empresas de redes virtuais de relacionamento como Facebook, Twitter e WhatsApp. Estes aplicativos e páginas internet permitem a criação de perfis com os quais o usuário pode incluir dados como nome, profissão, estado civil, endereço, gosto musical, orientação sexual, etc. Tudo isso é informação.
Para agravar o avanço na privacidade e informações delicadas, estes espaços virtuais disponibilizam a partilha de arquivos de textos, fotografias, vídeos e outras informações pessoais. Para além disso, há a possibilidade de interacção com os demais usuários daquela rede social onde estão publicadas as informações. O que parece ser uma aproximação entre amigos, muitas vezes é uma armadilha para golpes e extorsões diversas praticadas por oportunistas.
Quando um usuário com intenções criminosas resolve fazer-se passar por outra pessoa, assumindo um perfil que não é o seu (perfil falso), encontra nas próprias redes sociais todos os elementos (informações) que precisa para a prática deste crime. Basta copiar a fotografia de outra pessoa e criar o perfil com o nome do perfil escolhido e tudo está iniciado.
Debates sobre a reserva da intimidade da vida privada e familiar e a liberdade de expressão e informação sempre entram na agenda quando em alguns países essas redes sociais foram questionadas sobre o destino que dão às informações que recebem. O mesmo debate ocorre quando a criação de perfis (verdadeiros ou falsos) é feita sem que haja, por parte do provedor internet, qualquer tipo de autenticação de identidade.
Preocupa o facto de que a sociedade em rede expõe o indivíduo. Ainda mais quando muitas vezes esta exposição decorre de práticas ilícitas que causam prejuízos ao bom nome, à imagem, à reputação, ao bolso e em alguns casos culmina com a morte. Por isso, se devemos ver como um criminoso todo e qualquer responsável pela criação e uso de perfil falso, como devemos ver as empresas que criam este ambiente para as práticas criminosas e aos provedores que permitem o fluxo dessas informações?
Sabemos o quão complexo é o controlo e fiscalização da veracidade de perfis e conteúdos difundidos nas redes sociais, mas operações como esta da SIC, realizada em Cabinda, são de grande relevância para que possamos fazer uma profunda reflexão sobre direitos, liberdades e garantias fundamentais e, até, sobre a necessidade de uma legislação própria para que este novo universo digital, no qual estamos todos inseridos, não seja mais uma terra sem lei.

* A sua opinião não engaja o MTTICS.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia